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Curando uma febre com Medicina Tibetana

Por RUPERT WOLFE MURRAY | 3 maio de 2017 | viagens, NEPAL e TIBETe

Na vida, a coisa mais importante é a energia. Não energia do tipo que precisamos para ligar um carro, mas nossa própria energia pessoal: a energia que precisamos para chegar ao fim do dia. Não damos o devido valor a essa energia, ou pelo menos eu não dou.

Mas aí então, em Katmandu, fiquei sem energia nenhuma. Não conseguia levantar de manhã cedo, não conseguia escrever, ou ler, ou ir me encontrar com as pessoas. A única coisa que eu conseguia fazer era dormir e assistir antigas comédias britânicas no Youtube. Percebi então como a energia é vital para a minha vida. Sem ela, fico totalmente perdido.

O que tinha acontecido? Estou com essa uma febre, mas não aquela que vem normalmente quando temos uma gripe, com nariz escorrendo e outros sintomas que já são familiares. Nunca tinha me deparado com uma febre assim – não apenas os sintomas eram estranhos (cabeça quente, pés gelados, energia zero), mas ela chegava e ia embora como uma visita informal. Ela tinha personalidade.

A primeira vez que ela chegou, tratei-a comendo uma cabeça inteira de alho cru (cortei o alho em pedacinhos pequenos e os engoli como se fossem pílulas). Overdose de alho é como uma bomba nuclear sendo jogada no meu estômago. Nada sobrevive. Na manhã seguinte, a febre tinha ido embora.

Tentei repetir o truque quando a febre voltou na semana seguinte, mas não funcionou. Alho é ótimo quando você pega a gripe no início, mas essa febre era muito sorrateira e eu sabia que ela tinha se instalado profundamente em mim.  Eu tinha que descobri o que era isso. Entender isso. E não apenas tratar os sintomas, que é o que os médicos ocidentais fazem. Comecei a procurar um médico tibetano. Com certeza, deveria haver algum em Katmandu, capital do Nepal, onde milhares de tibetanos vivem no exílio.

O Médico Tibetano

Esse artigo era para ser sobre o médico tibetano que achei em Katmandu, mas já acabei escrevendo umas 800 palavras e ainda nem cheguei nele. O médico tibetano se chamava Tenzin Kunga e ele trabalha em uma parte bastante movimentada de Katmandu que se chama Chhatrapati Chowk. Não há um sistema de agendamento. Você tem que ir e esperar a sua vez junto com os monges e outros tibetanos que estão na fila.

Dr Kunga leu meu pulso, fez duas perguntas e disse: “você tem fogo na sua barriga”. Por alguma razão desconhecida, acabei me sentindo confortado com essas palavras. Provavelmente porque ele parecia saber exatamente o que tinha de errado comigo. Ele prescreveu três caixas de um remédio tradicional tibetano – que são bolinhas negras e duras feitas com um concentrado de ervas e minerais. Elas devem ser moídas e ingeridas em água quente. O cheiro mofento delas me lembra os antigos monastérios tibetanos.

O jeito que os médicos tibetanos leem o pulso é particularmente interessante, na medida em que usam três dedos em vez de um só. Cada dedo lê quatro pulsos diferentes. Eles leem 12 pulsos diferentes ao mesmo tempo.

Contei para o médico que o motivo principal de eu estar ali era para entender o que tinha de errado comigo. Ele disse que eu tinha “fogo oculto” na área da minha barriga, e que era alimentado por muita comida oleosa e apimentada. Um diagnóstico que fez total sentido, já que eu como muita fritura e pimenta, mesmo sabendo que me faz mal. Ele não sugeriu que eu parasse de comer o que quer que fosse, mas ali naquele momento decidi cortar drasticamente comidas oleosas e apimentadas.

Risonho, ele disse que a medicina ocidental tem só um diagnóstico para febre, enquanto o sistema tibetano reconhece 19 tipos diferentes, incluindo “febre crônica, febre extrema, febre imatura e febre vazia”. Ele também disse que “cada febre tem causa, fatores contribuintes, sintomas e antídotos próprios”.

Tenho muita confiança no sistema médico tibetano – desde que em 1987, no Tibete, eles me curaram de hepatite, uma doença que aparentemente é incurável. Depois de me beneficiar dela, aprendi que a medicina tibetana é um sistema médico complexo, capaz de diagnosticar até 80.000 doenças diferentes. Aparentemente, eles listaram todas as doenças que já existiram, existem e que ainda vão existir.

Eu conhecia um pouco sobre a medicina tibetana, mas meu conhecimento era bem esparso. Sei que se trata de equilíbrio – se seus órgãos estão desequilibrados, você fica doente.  Então, decidi escrever ao Bom Médico e perguntar se ele poderia explicar algumas coisas. Estava interessado particularmente em entender como eles leem o pulso. Para minha surpresa, ele me escreveu de volta uma explicação com muitos detalhes interessantes.

O que o dr. Kunga me escreveu foi isso:

“O dignóstico feito com a leitura do pulso é uma das abordagens primárias para diagnóstico, de acordo com a ciência tibetana da cura. O médico coloca três dedos na artéria radial do paciente e recebe sinais dos 12 principais órgãos internos. Cada sinal faz uma descrição própria relacionada a um desequilíbrio no corpo.

Acredita-se que a medicina tibetana seja tão antiga quanto uns 2.500 anos. Muitos dos conceitos dela são similares aos dos sistemas indianos de Ayurveda. O conceito de cinco grandes elementos, três princípios de energias de vento, bile e muco, sete constituintes do corpo, seis gostos, doze atributos de distúrbios e 17 qualidades de antídotos têm paralelo nos dois sistemas”.

Agradeci ao dr. Kunga, que fala um bom inglês e aprendeu seu ofício em Dharamsala, na Índia. Em seguida, fui ao ambulatório deles, onde peguei os remédios da receita e depois voltei de bicicleta por entre essa cidade caótica, mas maravilhosa. Hoje, três dias depois, estou me sentindo muito melhor e acho que finalmente botei essa febre para correr. Tirando o resto, estou cortando o combustível dela e, assim, o fogo eventualmente vai se apagar.

Para saber mais sobre a medicina tibetana, você pode visitar o instituto médico que está por trás dessa clínica qu descrevi aqui: http://www.men-tsee-khang.org/index2.htm

*Adaptado e traduzido do blog pessoal e de viagens de Rupert Wolfe Murray (http://wolfemurray.com/fixing-fever-tibetan-medicine/)