Horário: De Segunda à Sexta das 9.00 às 18.00 horas

DALAI LAMA PROMOVE MAIS ÉTICA SECULAR DO QUE BUDISMO

Por Justin Whitaker |  Patheos  |  24 de maio de 2017

Na semana passada, o líder espiritual tibetano deu palestras para três grupos de estudantes em sua residência em Dharamsala, na Índia. Os estudantes eram dos Estados Unidos e do Canadá, e 25 estudantes foram pela organização filantrópica Tong-Len (dar e receber, em tibetano), com sede no Norte da Índia.

Em vez de promover os tradicionais ensinamentos budistas ou a letra das escrituras, o Dalai Lama encorajou os estudantes a buscar a paz no próximo século. Para fazer isso, ele enfatizou a importância de se cultivar a razão e a capacidade humana primordial para compaixão. Ele disse:

“Parece que minha geração criou muitos problemas nesse planeta que a geração de vocês vai ter que trabalhar para resolver. Vocês terão que trabalhar para criar um mundo mais pacífico. Mas, como a natureza humana primordial é compassiva, há esperança. Se nossa natureza primordial fosse raiva, não haveria esperança alguma”.

O jornal Tibet Post registrou que: um jovem rapaz comentou sobre o trabalho dele com preocupação empática. Ele falou: “nós somos pobre e sabemos o que é sofrimento. Não queremos que outros sofram o que passamos. Queremos criar uma sociedade pacífica que dê apoio.” Outro jovem rapaz que é graduando em Comércio, em Kangra, disse que no passado ele era pedinte e que achou o trabalho dele com a ‘valorização da gentileza’, bastante útil para acalmar os sentimentos de raiva que ele tinha.

“Maravilho”, respondeu Sua Santidade, “você está colocando em ação a minha visão. Você esta mostrando como podemos compartilhar a ideia de ética com outros, sem ter que recorrer a essa ou àquela tradição religiosa, mas se baseando na experiência comum e nos valores humanos. Todo mundo gosta de gentileza, mas infelizmente nosso sistema educacional moderno, com todos os seus objetivos materialistas, não tem muito espaço para valores internos. Precisamos fazer com que as pessoas tenham mais consciência desses valores internos, com base nas descobertas científicas, no senso comum e na experiência comum”.

O Dalai Lama há muito tem sido um atuante defensor de irmos além dos valores tradicionais que não mais servem às necessidades da sociedade. Ele investigou a cultura ocidental com grande interesse, inclusive em sua juventude, quando ainda vivia no Tibete.  E, por décadas, ele tem sido atuante em diálogos públicos com proeminentes cientistas, historiadores, ativistas e outros. Dois de seus recentes livros tem buscado promover a ética além “dessa ou aquela tradição religiosa” e em direção a uma consciência humana mais ampla: “Ética para o Novo Milênio” (2001) e “Além de religião: uma ética por um mundo sem fronteiras” (2012).

Em uma conversa com a Revista UK no ano passado, o Dalai Lama chegou ao ponto de dizer que: “Ética é mais importante que religião. Nós não chegamos a esse mundo como membros de uma determinada religião. Mas a ética é inata”. Ele prosseguiu: “as ideias de ontem não vão nos levar a lugar algum. Especialmente para as crianças, os adultos de amanhã, ética é mais importante que religião”. Para esclarecer isso, ele disse:

“O conhecimento e a prática da religião certamente foram úteis, mas hoje isso não é mais suficiente, o que fica cada vez mais claro com os exemplos que temos de todo o mundo. Isso é verdade para todas as religiões, incluindo o cristianismo e o budismo. Guerras têm sido travadas em nome da religião, inclusive “guerras santas”. Com frequência, as religiões têm sido e ainda são intolerantes.

Por isso que eu digo que, no século XXI, nós precisamos de uma nova ética que transcenda todas as religiões. Muito mais crucial que a religião é a nossa espiritualidade elementar. É uma predisposição para o amor, para a gentileza e para o afeto que todos nós temos na gente, seja qual for a religião a qual pertencemos. Do meu ponto de vista, é possível viver sem religião, mas não é possível viver sem valores internos, sem ética”.

Como é um professor de grande importância ao redor do mundo, o Dalai Lama frequentemente se coloca de acordo com a situação. Quando fala para plateias mais tradicionais, ele continua ensinando textos e ideias tibetanas e indianas. Contudo, a disposição dele para esticar os limites tradicionais é bastante promissora para o budismo, principalmente em um mundo em que perambular por estradas empoeiradas, ou morar em cavernas ou debaixo de árvores tem tido cada vez menos apelo e relevância cultural.

*Artigo traduzido do site Patheos (http://www.patheos.com/blogs/americanbuddhist/2017/05/dalai-lama-continues-push-secular-ethics-buddhism.html)