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De boa-fé: Uma ética secular para a nossa época – O Dalai Lama

A educação pode contribuir com o desarmamento interno. Ela deve incutir valores humanos que promovam compaixão, bondade e um apreço pelo diálogo.

Escrito pelo Dalai Lama | Nova Délhi | Publicado em 1 de julho de 2017

O tempo está sempre indo adiante e não há força alguma que consiga pará-lo. A todo momento, temos a opção de usar o nosso tempo de forma construtiva ou negativa. A escolha que fazemos vai determinar se nosso mundo vai se tornar um mundo de paz ou se vai continuar mergulhado em conflitos e tensões.

Todos os seres humanos são basicamente iguais, sejam eles orientais ou ocidentais, do Sul ou do Norte, ricos ou pobres, instruídos ou sem instrução, dessa religião ou daquela, ou sejam eles crentes ou não. Emocionalmente, mentalmente e fisicamente (exceto por pequenas diferenças secundárias na aparência), somos iguais. Nós todos temos o mesmo potencial para termos experiências tanto negativas quanto positivas.  O bom senso nos mostra que as ações negativas sempre trazem dor e pesar enquanto as ações construtivas trazem satisfação e alegria. Portanto, é importante reconhecer que cada um de nós tem o potencial para se transformar em pessoas melhores e mais felizes, levando a uma sociedade melhor e mais feliz.

A maneira pela qual essa transformação pode ocorrer é adotando-se uma atitude mental positiva. Precisamos de uma nova forma de pensar que inclua medidas para o desenvolvimento do nosso mundo interior. Por séculos, a humanidade tem investido enormemente no desenvolvimento da sociedade em termos materiais, na base da ciência e da tecnologia. Isso tem resultado em avanços notáveis no padrão de vida das pessoas em todo o mundo. Apesar dessas conquistas científicas e tecnológicas, muitos problemas permanecem, uma vez que as pessoas continuam valorizando uma atitude mental ultrapassada.

No campo das relações internacionais, por exemplo, até países que prezam a liberdade, a democracia e a autonomia ainda recorrem bastante à força e à violência. Usar a força pode parecer tentador e determinante, mas é contraproducente no longo prazo. Primeiro porque a violência é imprevisível. Sua intenção inicial pode ser usar uma força controlada, mas uma vez que você praticou a violência, as consequências se tornam imprevisíveis. Violência sempre cria complicações inesperadas e uma reação violenta.

A violência também não é pragmática no mundo de hoje, já que todos os seres estão tão interligados. Nessas circunstâncias, destruir o seu vizinho é na verdade destruir a si mesmo. Para resolver um problema, você deve considerar o que está em jogo para os seus oponentes. Você tem que cuidar dos interesses deles da melhor forma que puder, e, à luz disso, tentar encontrar uma solução. O que precisamos é uma forma de desarmamento interior. Se cultivarmos isso e uma consciência dos efeitos da violência, aí a própria ideia da atividade militar se torna ultrapassada. Aí então poderemos pensar de forma séria sobre como fazer o desarmamento físico. Felizmente, na questão das armas nucleares, já existem programas para desmantelar ogivas nucleares. Poderíamos ir além e buscar a completa destruição das armas nucleares. Depois, o objetivo de longo prazo poderia ser almejar um mundo desmilitarizado.

Há também a crença equivocada de que o crescimento econômico sozinho poderia resultar em uma sociedade mais feliz. Mas as atuais desigualdades no desenvolvimento econômico, que resultam em uma grande disparidade entre ricos e pobres no mundo todo, assim como entre as nações, é fonte de tensões e de problemas práticos. Infelizmente, não são muitos de nós que conseguem ver a realidade da nossa situação, e, como consequência, uma grande diferença separa a nossa percepção da realidade. Com base em nossas percepções errôneas, nós adotamos atitudes que agravam os problemas da sociedade.

O futuro da humanidade depende que as gerações atuais adotem uma atitude mental positiva. É por isso que a educação é tão importante. O conhecimento é como um instrumento, e se o instrumento vai ser usado de forma construtiva ou destrutiva vai depender da motivação.  A educação moderna é muito consistente, mas parece estar baseada em uma aceitação universal da importância do desenvolvimento do cérebro. Não se dá muita atenção ao desenvolvimento da pessoa como um todo, nem para incentivar uma noção clara de valores e um coração bondoso.

Minha esperança é que os nossos sistemas educacionais prestem mais atenção ao desenvolvimento do amor e do calor humano. É importante enfrentar questões morais relacionadas a vida integral do indivíduo, incluindo o papel que ele ou ela desempenham na sociedade e na família. Desde lá do jardim de infância até a Universidade. Por esse caminho, há o potencial para fazer do indivíduo uma pessoa feliz, que tem uma família feliz e que vive em uma sociedade feliz.

Os pais têm uma responsabilidade especial de apresentar aos seus filhos os benefícios das boas qualidades da essência humana como o amor, a gentileza e um coração bondoso. Também seria muito útil apresentar às crianças a ideia de que quando quer que elas estejam frente a um conflito, o melhor jeito e o mais prático é resolvê-lo por meio do diálogo, não da violência. Se introduzirmos bem cedo a ideia do diálogo para as crianças, por meio das escolas, podemos treinar os estudantes a discutir visões diferentes. Dessa forma, o conceito de diálogo vai ser gradualmente incutido neles. Isso é importante porque sempre haverá conflitos e desavenças na sociedade humana, e o diálogo é o método adequado, efetivo e pragmático de verdadeiramente resolvê-los.

Por meio de uma educação assim, podemos fomentar a ideia de que seres humanos são criaturas sociais, que nossos interesses individuais se apoiam na sociedade e que é do nosso próprio interesse termos um coração bondoso e sermos bons vizinhos uns para os outros. Isso está diretamente relacionado com o que penso que são os valores humanos básicos – quais sejam, um senso de carinho, um senso de responsabilidade e um senso de perdão, baseado no compromisso com a unicidade da humanidade. Nós poderíamos chamar esses valores humanos básicos de ética secular, já que eles não dependem de fé religiosa. E o quero dizer com secular é que se adotamos uma religião ou não, o que é uma questão particular, esses valores permanecem verdadeiros. O próprio propósito da vida é encontrar a felicidade, então não há sentido algum em negligenciar os próprios valores que estão diretamente relacionados com o que faz a gente feliz.

Há boas razões para desenvolver esses valores humanos básicos, porque acredito que a natureza humana é essencialmente gentil. Acredito que nós somos agressivos apenas ocasionalmente, mas que, em geral, nossas vidas mais envolvem amor e afeto. Até as células em nosso corpo trabalham melhor se tivermos uma mente em paz. Uma mente agitada geralmente provoca algum desequilíbrio físico. Se a paz mental é importante para uma boa saúde, isso significa que o corpo em si está estruturado de uma forma consonante com a paz mental. Nós podemos concluir então que a natureza humana é mais propensa à gentileza e ao afeto.

No nível mental, também.  A gente descobre que quanto mais compassivos formos, mais nossa mente ficará em paz. Na minha breve vida, tenho visto que quanto mais eu medito sobre compaixão e penso sobre o número infinito de seres senscientes que estão sofrendo, mais eu desenvolvo um profundo sentimento de força interior. À medida que nossa força interior e nossa autoconfiança aumentam, o medo e a dúvida diminuem e isso automaticamente nos torna mais abertos. Aí então, nós passamos a nos comunicar mais facilmente, porque, quando estamos abertos, os outros reagem de forma condizente. Por outro lado, quando estamos cheios de medo, ódio ou receio, a porta para o nosso coração se fecha e nós passamos a nos relacionar com os outros com desconfiança. A parte triste disso é que você pode desenvolver uma impressão de que as outras pessoas têm desconfianças em relação a você, e a distância entre você e eles aumenta. Isso acaba em solidão e frustração.

Gerações mais novas têm uma grande responsabilidade de assegurar que o mundo se torne um lugar pacífico para todos. Isso pode acontecer se o nosso sistema educacional moderno envolver educar o coração junto a com cérebro.

O escritor é um líder espiritual tibetano.

Artigo traduzido do site The Indian Express (http://indianexpress.com/article/opinion/columns/in-good-faith-a-secular-ethics-for-our-times-4729827/)