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Ética PARA além da religião

 

Por Dalai Lama | abril de 2013 | Fórum de Fribourg, Suiça

DESVANTAGENS EM ENFATIZAR AS DIFERENÇAS SECUNDÁRIAS

O caminho para uma vida feliz e com menos transtornos passa por considerarmos que, antes de tudo, somo todos seres humanos.

Cada um dos sete bilhões de seres humanos deseja uma vida feliz, e cada um tem todo o direito de atingir esse objetivo. Se enfatizarmos diferenças secundárias como “eu sou tibetano”, então isso faz parecer que estou mais preocupado com o Tibete. Além disso, “eu sou budista” gera um certo sentimento de proximidade com outros budistas, mas automaticamente cria uma certa distância de outras fés.

Na verdade, esse tipo de visão é uma fonte de problemas. Violência nunca acontece se considerarmos outras pessoas como seres humanos, assim como nós mesmos.

Se eu estou sinceramente preocupado com o seu bem-estar, tenho que falar com você com a perspectiva de que você é um ser humano irmão, ou irmã, um ser humano assim como eu. De fato, somos todos iguais: mentalmente, emocionalmente e fisicamente. E o mais importante, todos queremos uma vida feliz sem sofrimentos. E eu sou assim também, então vamos conversar com essa perspectiva.

ÉTICA LAICA

A ética laica está bastante relacionada a fatores biológicos, mas a fé religiosa é algo que só os seres humanos têm. A fé se desenvolveu no seio da humanidade, mas certamente não é um fator biológico. Como já mencionei, de sete bilhões de pessoas, um bilhão se considera ateu. E, se pararmos para pensar, dos seis bilhões que supostamente são crentes, há muita gente corrupta. Há escândalos, exploração, corrupção, traição, mentira e bullying. Isso, acredito eu, é devido à falta de uma convicção genuína nos princípios morais. Por isso, até a religião é usada para propósitos errados. Às vezes, acho que a religião ensina a gente a agir de forma hipócrita. Nós dizemos coisas boas como “amor” e “compaixão”, mas na realidade não agimos de acordo, e há um monte de injustiça.

A religião fala sobre essas coisas que são bonitas de um jeito meio tradicional, e não de um jeito que realmente se conecta com o nosso coração. Isso decorre da falta de princípios morais das pessoas, ou da falta de convicção sobre o valor dos princípios morais. Independentemente de a pessoa ser crente ou ateia, precisamos pensar mais seriamente em como educar as pessoas sobre esses princípios morais. Depois, com base nisso, podemos acrescentar a religião, e aí teremos de fato uma religião genuína. Todas as religiões falam sobre esses valores.

DESENVOLVENDO DESAPEGO NO PRÓPRIO CAMPO

Uma vez na Argentina, durante um debate com cientistas e com alguns líderes religiosos, conheci um físico que se chamava Maturana. Ele era professor do finado Dr. Varela. Durante sua palestra, ele mencionou que, como físico, não deveria desenvolver apego em relação à sua própria área científica. Então, essa foi uma afirmação maravilhosa e sábia que eu aprendi.

Eu sou budista, mas não devo desenvolver apego com relação ao budismo, porque apego é uma emoção negativa. Quando você desenvolve apego, sua visão se torna tendenciosa. Uma vez que sua mente se torna tendenciosa, você não consegue ver as coisas objetivamente.

Às vezes, conto que uma vez estive em Lurdes, no sul da França. Fui como peregrino, e, na frente de uma estátua de Jesus Cristo, bebi um pouco de água. Eu estava na frente da estátua e refleti sobre tudo que tinha ouvido, que milhões de pessoas visitaram esse lugar procurando conforto, algumas delas pessoas doentes, que através de sua fé e de algum tipo de benção foram curadas. Então, refleti sobre essas coisas e tive um certo sentimento profundo de apreço pelo cristianismo, as lágrimas quase vieram.

De qualquer forma, até o apego pela sua própria fé não é bom. Às vezes, a religião causa conflitos e divisões, e isso é um assunto um tanto sério. A religião é, supostamente, um método de aumentar a compaixão e o perdão, que são os antídotos para a raiva e para o ódio. Então, se a própria religião cria mais ódio contra as outras fés religiosas, é como se tivéssemos um remédio que, em vez de curar a doença, causa mais doença. O que fazer? Essencialmente, todas essas coisas tristes existem devido à falta de convicção nos princípios morais. Portanto, acredito que precisamos de diversos fatores e de práticas para fazermos um verdadeiro esforço de promover a ética secular.

SECULARISMO E RESPEITO PELOS OUTROS

Agora, sobre ética laica. Eu conhecia muito bem o ex-vice-primeiro-ministro indiano, Advani. Em certa ocasião, ele mencionou que uma equipe de televisão canadense o entrevistou e perguntou qual era a base para a prática bem-sucedida da democracia na Índia. Ele respondeu que, por milhares de anos na Índia, a tradição foi de sempre respeitar os outros, apesar de argumentos e visões diferentes.

Eu já disse que alguns dos meus amigos, alguns cristãos e alguns muçulmanos, têm um pouco de reserva com a palavra “secularismo”. Eu acho que é porque, durante a Revolução Francesa ou Revolução Bolchevique, houve uma tendência a ser contra a religião. Mas quero fazer uma clara distinção entre religião e instituições religiosas, que são duas coisas diferentes. Como pode uma pessoa sensata ser contra a religião? Religião significa amor e compaixão, e ninguém pode criticar essas coisas. As instituições religiosas são, porém, algo diferente.

Ainda hoje, se houver algum tipo de exploração ocorrendo dentro de instituições religiosas, incluindo a comunidade budista tibetana, nós temos que ser contra isso. Assim, nós devemos fazer a distinção entre as instituições religiosas, e as reais práticas e mensagens religiosas.

De acordo com o entendimento indiano de secularismo, nunca há um sentimento de negatividade com relação à religião, mas bastante respeito por todas as religiões, e também respeito por todos os ateus. Eu acho isso muito sábio. Como podemos promover isso? Através da pregação? Não. Então, certamente através da prece? Não. Mas através da educação, sim. Nós recebemos educação sobre higiene física, então por que não receber educação sobre higiene mental ou emocional, ou conhecimentos simples sobre como cuidar de uma mente saudável? Não há necessidade de se falar sobre Deus ou de uma próxima vida, ou sobre Buda ou nirvana, mas simplesmente sobre como se tornar uma pessoa feliz mentalmente. Uma pessoa feliz gera uma família feliz, que gera uma comunidade feliz. Logo, acho que nós precisamos de algumas lições sobre higiene emocional.

HIGIENE EMOCIONAL

O que é higiene emocional? Significa cuidar de fatores que destroem nossa calma mental, ou nossa paz de espírito. Esses fatores são como doenças mentais, porque essas emoções negativas não destroem apenas nossa saúde e nossa paz mental, mas também destroem nossa habilidade mental de julgar a realidade. Isso nos prejudica enormemente porque quando estamos com muita raiva, não conseguimos ver a realidade e nossa mente fica enviesada. Também com o apego, não conseguimos ver a realidade corretamente. Isso é uma doença da mente. A própria natureza da mente é consciência e então qualquer forma de fator mental que reduza essa capacidade de consciência é uma coisa negativa.

Higiene emocional é, portanto, a diminuição desses tipos de emoções e a manutenção de nossa habilidade mental para a clareza e calma, que constitui uma mente saudável. Para fazer isso, devemos primeiramente cultivar e desenvolver o interesse em fazê-lo. Sem o interesse, não se pode forçar as pessoas a fazê-lo. Nenhuma lei ou constituição pode forçar as pessoas a fazê-lo. Tem de vir do entusiasmo individual, que só vem quando vemos valor em fazê-lo. E são esses valores que nós podemos ensinar.

*Adaptado do site Study Buddhism (https://studybuddhism.com/en/buddhism-in-daily-life/universal-values/ethics-beyond-religion)