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Guia para Meditação Mindfulness: as origens na Ciência Contemplativa e no budismo.

 

Por Dr. Miles Neale | 12 de junho de 2017

Pois então… o que é Mindfulness? O dr. Jon Kabat-Zinn define Mindfuness como “a consciência que surge quando intencionalmente colocamos nossa atenção no momento presente e, sem julgamentos, permanecemos atentos, de momento em momento, ao desenrolar da experiência” (1).  O dr. Germer possui uma explicação até mais simples: “a consciência da experiência presente com aceitação”. (2)

Eu defino Mindfulness como a atenção voluntária, sustentada e centrada no presente, com uma atitude de aceitação disciplinada. Se praticarmos o suficiente, isso pode nos ajudar de forma natural a não cair nos nossos padrões automáticos, condicionados e inconscientes de pensamentos, de emoções e de ações.

Assim como flexibilidade, resistência e força podem ser cultivadas durante um treinamento físico, o treinamento da meditação Mindfulness pode cultivar diversas qualidades mentais distintas, que incluem relaxamento, concentração, sensibilidade equilibrada e clareza mental

A Relação entre Mindfulness e a Ciência Contemplativa Budista

Para que possamos entender melhor como Mindfulness funciona e como ela pode nos ajudar, é importante entender que ela é apenas um dos aspectos de uma abordagem complexa sobre a mente humana e sobre a experiência humana. Mindfulness tem origem no termo pali “sati”, que significa lembrar – algo que é essencial na prática de meditação budista de insight. Ao mesmo tempo em que é geralmente classificado como uma das principais religiões do mundo, o Budismo é também considerado uma filosofia prática, uma maneira de viver eticamente e uma das primeiras obras coerentes de psicologia que tivemos na humanidade. Por essa razão, muitos pesquisadores ocidentais agora se referem a uma subdivisão dos ensinamentos do budismo como ciência contemplativa.

AS QUATRO NOBRE VERDADES E O NOBRE CAMINHO ÓCTUPLO

Os ensinamentos da ciência contemplativa budista, que são aqueles ensinamentos que mais têm relevância para Mindfulness, contêm uma teoria universal da mente e do bem-estar com base no que o Buda chamou de Quatro Nobres Verdades e Nobre Caminho Óctuplo. As Quatro Nobres Verdades servem para identificar não apenas as causas do sofrimento humano, mas também o modo como cessar esse sofrimento. O Nobre Caminho Óctuplo por sua vez apresenta o caminho prático e o processo pelo qual podemos cessar esse sofrimento.

AS QUATRO NOBRE VERDADES: IDENFICANDO AS CAUSAS DO SOFRIMENTO E A MANEIRA DE CESSÁ-LO.

Quando vivemos de forma inconsciente estamos fadados a inevitáveis sofrimentos, angústias e traumas repetidos. Entretanto, se em vez de ficarmos repelindo, encararmos isso de forma investigativa, esse sofrimento nos proporciona a oportunidade de aprender e de entender a nós mesmos.

Nosso sofrimento é criado por nós mesmos por meio de uma sequência inconsciente de eventos neuropsicológicos. Primeiro, há uma percepção equivocada do “Eu” e da realidade, o que gera emoções destrutivas (como o medo baseado no apego e na hostilidade defensiva). Essas emoções destrutivas nos levam a ações reativas prejudiciais que eventualmente acabam se integrando em nossa neurobiologia. Em outras palavras, nossas reações no presente moldam nossa experiência no futuro – nós criamos a nós mesmos e criamos também nossa experiência.

Como nosso sofrimento é criado por nós mesmos, e não é algo que ocorre de forma aleatória ou que é inerente ou predeterminado, nós temos a capacidade de intervir conscientemente e extinguir plenamente as causas futuras do nosso sofrimento. Essa psicologia tem uma visão generosa da natureza humana e defende que nós temos o potencial para viver totalmente livres dos sofrimentos que nós mesmos nos impomos e que podemos ter um bem-estar sustentável.

Existe um método abrangente para atingir essa completa liberdade do sofrimento. Os budistas chamam esse método de Nobre Caminho Óctuplo.

O NOBRE CAMINHO ÓCTUPLO: INICIANDO A JORNADA PARA O BEM-ESTAR

Os componentes do Nobre Caminho Óctuplo são:

  • Visão de mundo realista
  • Intenção íntegra
  • Estilo de vida harmônico
  • Comunicação verdadeira
  • Ação virtuosa
  • Esforço contente
  • Mindfulness inabalável
  • Concentração precisa

ESSES OITO COMPONENTES SÃO SUBDIVIDIDOS EM TRÊS TREINAMENTOS:

  1. Treinamento da Sabedoria, que envolve ter uma visão realista do “Eu” e da realidade, além de uma intenção íntegra de elucidar percepções distorcidas ou equivocadas.
  2. Treinamento da Meditação, que utiliza o esforço contente, mindfulness inabalável e a concentração precisa para estabilizar e refinar a mente, neutralizando emoções perturbadoras.
  3. Treinamento Ético, que envolve um estilo de vida harmônico, comunicação verdadeira e ação virtuosa, preparando o caminho para uma relação mais sadia com si mesmo, com os outros e com o mundo.

Como se pode ver, meditação e mindfulness são apenas um aspecto dos treinamentos. Como já mencionei em outros lugares, um tratamento por uma abordagem completa, em uma perspectiva da ciência contemplativa, deveria incorporar também uma perspectiva de sabedoria e de estilo de vida harmônico, para se obter uma transformação radical. (3)

Como a maioria dos ocidentais tem contato com a ciência contemplativa budista por meio de Mindfulness e como a prática é enaltecida por seus efeitos profundos na saúde, vale a pena investigar como Mindfulness é ensinada tradicionalmente, usando-se os Quatro Pilares de Mindfulness.

 

NOTA DE RODAPÉ

(1) GERMER, C. K.; SIEGEL, R. D.; FULTON, P. R. Mindfulness e psicoterapia. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2015.

(2) Kabat-Zinn, J. (2003). Mindfulness-based interventions in context: Past, present, and future. Clinical Psychology: Science and Practice, 10(2), 144-156.

(3) Neale, M. (2011). McMindfulness and Frozen Yoga: Rediscovering the Essential Teachings of Ethics and Wisdom.

Artigo traduzido do blog do Embodied Philosophy (http://www.fivetattvas.com/blog/guide-to-mindfulness-meditation)