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Dalai Lama

Sua Santidade o 14º Dalai Lama

Tenzin Gyatso, líder espiritual do povo tibetano, Prêmio Nobel da Paz e voz mundial da compaixão e da não violência.

Sua Santidade o 14º Dalai Lama sorrindo, com as mãos em saudação, diante de um altar enfeitado com guirlandas de flores

Quem é

Sua Santidade o 14º Dalai Lama, Tenzin Gyatso, é o líder espiritual do Tibete. Nasceu em 6 de julho de 1935, em uma família de agricultores, em um pequeno povoado de Taktser, em Amdo, no nordeste do Tibete. Aos dois anos, a criança, que naquela época se chamava Lhamo Dhondup, foi reconhecida como a reencarnação do 13º Dalai Lama, Thubten Gyatso. Acredita-se que os Dalai Lamas são manifestações de Avalokiteshvara ou Chenrezig, o Bodhisattva da Compaixão e santo padroeiro do Tibete. Bodhisattvas são seres iluminados que adiaram o próprio nirvana e escolheram renascer para servir à humanidade.

Educação no Tibete

Sua Santidade iniciou a educação monástica aos seis anos. O currículo tinha cinco matérias principais e cinco secundárias. As principais eram lógica, arte e cultura tibetanas, sânscrito, medicina e filosofia budista. A filosofia budista se dividia em cinco categorias: Prajnaparamita, a perfeição da sabedoria; Madhyamika, a filosofia do Caminho do Meio; Vinaya, o cânone da disciplina monástica; Abhidharma, a metafísica; e Pramana, a lógica e a epistemologia. As cinco matérias secundárias eram poesia, música e drama, astrologia, métrica e composição, e sinônimos. Aos 23 anos, ele prestou o exame final no Templo Jokhang, em Lhasa, durante o Festival anual de orações Monlam, em 1959. Foi aprovado com louvor e recebeu o título de Geshe Lharampa, o grau mais alto, equivalente a um doutorado em filosofia budista.

Responsabilidades de liderança

Em 1950, depois da invasão chinesa do Tibete em 1949, Sua Santidade foi chamado a assumir plenamente o poder político. Em 1954, foi a Pequim para negociações de paz com Mao Zedong e outros líderes chineses, entre eles Deng Xiaoping e Chou Enlai. Por fim, em 1959, a repressão brutal do levante nacional tibetano em Lhasa pelas tropas chinesas o obrigou a fugir para o exílio. Desde então, vive em Dharamsala, no norte da Índia, sede da administração política tibetana no exílio. Desde a invasão chinesa, Sua Santidade tem apelado às Nações Unidas sobre a questão do Tibete. A Assembleia Geral adotou três resoluções sobre o Tibete, em 1959, 1961 e 1965.

Processo de democratização

Em 1963, Sua Santidade apresentou um projeto de constituição democrática para o Tibete, seguido de uma série de reformas para democratizar a estrutura administrativa. A nova constituição democrática promulgada como resultado dessa reforma recebeu o nome de Carta dos Tibetanos no Exílio. A carta garante a liberdade de expressão, de crença, de reunião e de movimento. Ela também oferece diretrizes detalhadas sobre o funcionamento do governo tibetano em relação às pessoas que vivem no exílio.

Em 1992, Sua Santidade emitiu diretrizes para a constituição de um futuro Tibete livre. Anunciou que, quando o Tibete se tornasse livre, a tarefa imediata seria criar um governo provisório, cuja primeira responsabilidade seria eleger uma assembleia constituinte para elaborar e adotar a constituição democrática do Tibete. Naquele dia, Sua Santidade transferiria toda a sua autoridade histórica e política ao Presidente interino e viveria como um cidadão comum. Ele também afirmou que esperava que o Tibete, formado pelas três províncias tradicionais de U-Tsang, Amdo e Kham, fosse federal e democrático.

Em maio de 1990, as reformas pedidas por Sua Santidade resultaram em uma administração no exílio verdadeiramente democrática para a comunidade tibetana. O Gabinete tibetano (Kashag), que até então era nomeado por Sua Santidade, foi dissolvido junto com a Décima Assembleia de Deputados do Povo Tibetano (parlamento tibetano no exílio). No mesmo ano, tibetanos exilados no subcontinente indiano e em mais de 33 outros países elegeram 46 membros para a ampliada Décima Primeira Assembleia Tibetana, pelo princípio de um homem, um voto. A Assembleia, por sua vez, elegeu os novos membros do gabinete.

Em setembro de 2001, foi dado outro passo importante na democratização: o eleitorado tibetano elegeu diretamente o Kalon Tripa, o ministro mais graduado do Gabinete. O Kalon Tripa nomeou então seu próprio gabinete, que precisava ser aprovado pela Assembleia tibetana. Na longa história do Tibete, foi a primeira vez que o povo elegeu a liderança política do país.

Em 10 de março de 2011, Sua Santidade falou sobre sua renúncia à liderança política e enfatizou que havia chegado a hora de um novo líder político. Em seguida, em 14 de março, ele explicou em detalhes seu plano de transferir a liderança política, em mensagem à Assembleia do Parlamento tibetano. Foram preparadas minutas de emendas à Carta dos Tibetanos, que foram deliberadas na reunião geral nacional de tibetanos realizada em Dharamsala, em maio de 2011. Com base nas recomendações da reunião geral, o Parlamento tibetano convocou uma sessão extra, de 25 a 28 de maio, para dar a aprovação final às emendas à Carta. Em 29 de maio de 2011, Sua Santidade o Dalai Lama ratificou as emendas à Carta dos Tibetanos, nas quais todos os poderes foram alterados e divididos entre a liderança eleita.

Iniciativas de paz

Em setembro de 1987, Sua Santidade propôs o Plano de Paz de Cinco Pontos para o Tibete, como primeiro passo para uma solução pacífica para a situação, que se agravava no Tibete. Ele previa que o Tibete se tornaria um santuário, uma zona de paz no coração da Ásia, onde todos os seres sencientes poderiam conviver em harmonia e o frágil ambiente poderia ser preservado. Até agora, a China não respondeu de forma positiva às diversas propostas de paz apresentadas por Sua Santidade.

O Plano de Paz de Cinco Pontos

Em discurso aos membros do Congresso dos Estados Unidos, em Washington, D.C., em 21 de setembro de 1987, Sua Santidade propôs o seguinte plano de paz, que contém cinco componentes básicos:

  1. Transformação de todo o Tibete em uma zona de paz.
  2. Abandono da política chinesa de transferência populacional, que ameaça a própria existência dos tibetanos como povo.
  3. Respeito aos direitos humanos fundamentais e às liberdades democráticas do povo tibetano.
  4. Restauração e proteção do ambiente natural do Tibete, e abandono do uso do Tibete pela China para a produção de armas nucleares e para o descarte de lixo nuclear.
  5. Início de negociações sérias sobre o futuro status do Tibete e sobre as relações entre os povos tibetano e chinês.

Proposta de Estrasburgo

Em discurso aos membros do Parlamento Europeu, em Estrasburgo, em 15 de junho de 1988, Sua Santidade fez outra proposta detalhada, desenvolvendo o último ponto do Plano de Paz de Cinco Pontos. Ele propôs conversas entre chineses e tibetanos que levassem a uma entidade política democrática e autogovernada, abrangendo as três províncias do Tibete. Essa entidade estaria associada à República Popular da China, e o governo chinês continuaria responsável pela política externa e pela defesa do Tibete.

Reconhecimento universal

Sua Santidade o Dalai Lama é um homem de paz. Em 1989, recebeu o Prêmio Nobel da Paz por sua luta não violenta pela libertação do Tibete. Ele defendeu de forma consistente políticas de não violência, mesmo diante de agressão extrema. Também se tornou o primeiro laureado com o Nobel reconhecido por sua preocupação com os problemas ambientais globais. Sua Santidade viajou a mais de 62 países em seis continentes. Encontrou-se com presidentes, primeiros-ministros e monarcas de grandes nações. Manteve diálogos com líderes de diferentes religiões e com muitos cientistas conhecidos. Desde 1959, recebeu mais de 84 prêmios, títulos de doutor honoris causa, distinções e outras honrarias, em reconhecimento à sua mensagem de paz, de não violência, de compreensão inter-religiosa, de responsabilidade universal e de compaixão. Também é autor de mais de 72 livros. Sua Santidade se descreve como um simples monge budista.

Quatro compromissos principais

Sua Santidade tem quatro compromissos principais na vida.

Em primeiro lugar, como ser humano, ele se compromete a promover valores humanos como compaixão, perdão, tolerância, contentamento e autodisciplina. Diz que, como seres humanos, somos todos iguais: todos queremos felicidade e não queremos sofrimento. Mesmo pessoas que não acreditam em religião podem se beneficiar ao incorporar esses valores à vida. Sua Santidade chama esses valores humanos de ética secular ou valores universais. Ele se compromete a falar sobre a importância deles e a compartilhá-los com todas as pessoas que encontra.

Em segundo lugar, como praticante religioso, Sua Santidade se compromete a promover a harmonia e a compreensão religiosas entre as principais tradições religiosas do mundo. Apesar das diferenças filosóficas entre elas, todas as grandes religiões do mundo têm o mesmo potencial de formar bons seres humanos. Por isso, é importante que todas as tradições religiosas se respeitem e reconheçam o valor de suas respectivas tradições. A ideia de que existe uma única verdade e uma única religião é relevante para o praticante individual. Já em relação à comunidade mais ampla, é preciso reconhecer que existem várias verdades e várias religiões.

Em terceiro lugar, Sua Santidade é tibetano e, como Dalai Lama, é o foco da esperança e da confiança do povo tibetano. Por isso, seu terceiro compromisso é trabalhar para preservar a cultura budista do Tibete, que é uma cultura de paz e não violência, e proteger o ambiente natural do Tibete.

Em quarto lugar, Sua Santidade tem falado recentemente, de novo, de seu compromisso em criar maior consciência e interesse pelo valor do antigo conhecimento indiano entre os jovens indianos de hoje. Ele está convencido de que a rica compreensão indiana antiga sobre o funcionamento da mente e das emoções, assim como as técnicas de treinamento mental, como a meditação, desenvolvidas pelas tradições indianas, têm grande relevância atualmente. Como a Índia tem longa história de lógica e raciocínio, ele confia que seu conhecimento antigo, visto sob uma perspectiva secular e acadêmica, pode ser unido à educação moderna. Considera que a Índia está, de fato, em posição especial para realizar essa união entre modos antigos e modernos de conhecer, de forma produtiva, a fim de promover, na sociedade contemporânea, um modo de estar no mundo mais integrado e ancorado na ética.

Os Dalai Lamas anteriores

Sua Santidade é o 14º de uma linhagem de reencarnações de Avalokiteshvara. Clique em um nome para ler a biografia resumida.

O Primeiro Dalai Lama, Gedun Drupa

O Primeiro Dalai Lama, Gedun Drupa, nasceu em 1391, em Gyurmey Rupa, perto de Sakya, na região de Tsang, no centro do Tibete, filho de Gonpo Dorjee e Jomo Namkha Kyi, uma família nômade. Seu nome de nascimento era Pema Dorjee.

Ele estudou a leitura e a escrita da escrita tibetana com Gya-Ton Tsenda Pa-La e, aos quatorze anos, recebeu os votos de noviço do Khenchen Drupa Sherab, abade do mosteiro de Narthang, que lhe deu o nome religioso de Gedun Drupa. Mais tarde, em 1411, recebeu do mesmo abade os votos de Gelong (ordenação completa).

O jovem Gedun Drupa conhecia a fama do Grande Tsongkhapa, fundador da Escola Gelugpa, e tornou-se seu discípulo em 1416. Sua lealdade e devoção levaram o grande mestre a torná-lo seu principal discípulo. Tsongkhapa entregou a Gedun Drupa um conjunto novo de mantos, como sinal de que ele difundiria os ensinamentos budistas por todo o Tibete. Em 1447, Gedun Drupa fundou o mosteiro de Tashi Lhunpo, em Shigatse, uma das maiores universidades monásticas da Escola Gelugpa.

O Primeiro Dalai Lama, Gedun Drupa, foi uma pessoa de imensa erudição, conhecido por unir estudo e prática, e escreveu mais de oito volumosos livros sobre sua compreensão dos ensinamentos e da filosofia do Buda. Em 1474, aos oitenta e quatro anos, faleceu em meditação no mosteiro de Tashi Lhunpo.

O Segundo Dalai Lama, Gedun Gyatso

O Segundo Dalai Lama, Gedun Gyatso, nasceu em 1475, em Tanag Sekme, perto de Shigatse, na região de Tsang, no centro do Tibete, filho de Kunga Gyaltso e Machik Kunga Pemo, uma família de agricultores.

Seu pai era um conhecido praticante tântrico da linhagem Nyingmapa. Quando Gedun Gyatso já conseguia falar, diz-se que contou aos pais que se chamava Pema Dorjee, o nome de nascimento do Primeiro Dalai Lama, e que gostaria de viver no mosteiro de Tashi Lhunpo. Antes de ele ser concebido, o pai teve um sonho em que alguém vestido de branco lhe pediu que chamasse o filho de Gendun Drupa e disse que o menino teria a capacidade de recordar vidas passadas. No entanto, o pai deu-lhe o nome de Sangye Phel.

Ele recebeu a educação primária do pai e, aos onze anos, foi reconhecido como a reencarnação de Gendun Drupa, o Primeiro Dalai Lama, e entronizado no mosteiro de Tashi Lhunpo. Em 1486, recebeu os votos de noviço de Panchen Lungrig Gyatso e os votos de Gelong (ordenação completa) de Choje Choekyi Gyaltsen, que lhe deu o nome monástico de Gedun Gyatso. Estudou nos mosteiros de Tashi Lhunpo e Drepung.

Em 1517, Gedun Gyatso tornou-se abade do mosteiro de Drepung e, no ano seguinte, reviveu o Monlam Chenmo, o Grande Festival de Orações, presidindo os eventos com monges de Sera, Drepung e Gaden, as três grandes universidades monásticas da Seita Gelugpa. Em 1525, tornou-se abade do mosteiro de Sera. Faleceu em 1542, aos sessenta e sete anos.

O Terceiro Dalai Lama, Sonam Gyatso

O Terceiro Dalai Lama, Sonam Gyatso, nasceu em 1543, em Tolung, perto de Lhasa, filho de Namgyal Drakpa e Pelzom Bhuti, uma família rica.

Seus pais já tinham tido muitos filhos, mas todos haviam morrido. Para afastar qualquer infortúnio que pudesse lhes tirar aquele recém-nascido, alimentaram-no com leite de uma cabra branca e deram-lhe o nome de Ranu Sicho Pelzang, que significa o próspero salvo pelo leite de cabra.

Em 1546, aos três anos, Sonam Dakpa Gyaltsen, governante do Tibete, e o Panchen Sonam Dakpa o reconheceram como a reencarnação de Gedun Gyatso. Ele foi levado ao mosteiro de Drepung em grande procissão, foi entronizado e teve os cabelos cortados, simbolizando sua renúncia ao mundo. Aos sete anos, recebeu os votos de noviço de Sonam Dakpa e adotou o nome de Sonam Gyatso. Aos vinte e dois anos, recebeu de Gelek Palsang os votos de Gelong (ordenação completa) de bhikshu.

Em 1552, Sonam Gyatso tornou-se abade do mosteiro de Drepung e, em 1558, abade do mosteiro de Sera. Em 1574, fundou o Phende Lekshe Ling para ajudá-lo a realizar suas atividades religiosas. Esse local, hoje conhecido como mosteiro de Namgyal, ainda serve como mosteiro pessoal do Dalai Lama. Naquele período, o rei mongol Altan Khan ofereceu-lhe o título de Dalai Lama, que significa literalmente Oceano de Sabedoria, e, em retribuição, o Dalai Lama concedeu a Altan Khan o título de Brahma, o rei da religião. O Terceiro Dalai Lama também fundou o mosteiro de Kumbum, no local de nascimento de Tsongkhapa, e o mosteiro de Lithang, em Kham. Em 1588, faleceu enquanto ensinava na Mongólia.

O Quarto Dalai Lama, Yonten Gyatso

O Quarto Dalai Lama, Yonten Gyatso, nasceu em 1589, na Mongólia, filho do chefe tribal chokar Tsultrim Choeje, neto de Altan Khan, e de sua segunda esposa, PhaKhen Nula.

Com as previsões dos oráculos estatais e sinais auspiciosos em seu nascimento, o abade do mosteiro de Gaden o reconheceu como a verdadeira reencarnação do Terceiro Dalai Lama, e ele recebeu o nome de Yonten Gyatso. Seus pais, porém, se recusaram a separar-se do filho até que ele fosse mais velho, por isso ele recebeu a educação religiosa primária na Mongólia, com lamas tibetanos.

Em 1601, aos doze anos, Yonten Gyatso foi levado ao Tibete, acompanhado do pai e do antigo detentor do trono de Gaden, Sangya Rinchen, que lhe concedeu os votos de noviço monge. Em 1614, aos vinte e seis anos, recebeu os votos de Gelong (ordenação completa) do Quarto Panchen Lama, Lobsang Choegyal. Depois, tornou-se abade do mosteiro de Drepung e, em seguida, do de Sera. Em 1617, aos vinte e sete anos, faleceu no mosteiro de Drepung.

O Quinto Dalai Lama, Lobsang Gyatso

O Quinto Dalai Lama, Lobsang Gyatso, nasceu em 1617, em Lhoka Chingwar Taktse, ao sul de Lhasa, filho de Dudul Rabten e Kunga Lhanzi.

Quando Sonam Choephel, principal assistente do Quarto Dalai Lama, ouviu falar das excepcionais habilidades do menino de Chong-Gya, visitou a criança e mostrou-lhe objetos que haviam pertencido ao Dalai Lama anterior. O menino disse imediatamente que aqueles objetos lhe pertenciam. Sonam Choephel manteve em segredo a descoberta por causa da situação política turbulenta. Quando as coisas se acalmaram, o Quinto Dalai Lama foi levado ao mosteiro de Drepung, onde foi ordenado monge pelo Terceiro Panchen Lama, Lobsang Chogyal, e recebeu o nome de Ngawang Lobsang Gyatso.

O Quinto Dalai Lama foi reconhecido em um momento de turbulência política no Tibete. Essa incerteza foi resolvida por Gushir Khan, chefe dos mongóis Qoshot, e, em 1642, o Dalai Lama foi entronizado no salão principal de Shigatse como líder espiritual e político do Tibete. Em 1645, reuniu-se com altos funcionários do Gaden Phodrang para tratar da construção do Palácio Potala, na Colina Vermelha, onde o 33º rei do Tibete, Songtsen Gampo, havia erguido uma fortaleza vermelha. No mesmo ano, a construção começou e levou quase quarenta e três anos para ser concluída.

Em 1649, Sunzhi, o imperador manchu, convidou o Dalai Lama a Pequim. Quando ele chegou à província chinesa de Ningxia, foi recebido pelo ministro e comandante militar do imperador, que chegou com três mil cavaleiros para escoltar o líder tibetano. O próprio imperador viajou de Pequim e o recebeu em um lugar chamado Kothor. Na capital chinesa, o Dalai Lama hospedou-se no Palácio Amarelo, construído para ele pelo imperador. Quando o imperador o encontrou oficialmente, os dois trocaram títulos. Em 1653, o Dalai Lama retornou ao Tibete.

Gushir Khan faleceu em 1655, assim como Sonam Choephel, o Desi. O Dalai Lama nomeou o filho de Gushir Khan, Tenzin Dorjee, como o novo rei mongol, e Drong Mey-Pa Thinley Gyatso sucedeu a este no cargo de Desi. Quando o imperador manchu morreu, em 1662, seu filho K'ang-si subiu ao trono manchu. No mesmo ano, o Panchen Lama morreu aos noventa e um anos. Em 1665, atendendo a um pedido do mosteiro de Tashilhunpo, o Dalai Lama reconheceu um menino da região de Tsang como a reencarnação do Panchen Lama falecido e deu-lhe o nome de Lobsang Yeshi.

O Quinto Dalai Lama foi um grande erudito, versado em sânscrito. Escreveu muitos livros, inclusive um sobre poesia. Fundou também duas instituições de ensino, uma para funcionários leigos e outra para funcionários monges, onde se ensinavam mongol, sânscrito, astrologia, poesia e administração. Era um homem de poucas palavras, mas o que dizia tinha convicção e influenciava governantes além das fronteiras do Tibete. Em 1682, aos sessenta e cinco anos, morreu antes de concluir a construção do Palácio Potala, mas não sem antes confiar a responsabilidade da obra a Sangya Gyatso, o novo Desi, com a recomendação de manter sua morte em segredo por enquanto.

O Sexto Dalai Lama, Tsangyang Gyatso

O Sexto Dalai Lama, Tsangyang Gyatso, nasceu em 1682, na região de Mon Tawang, no que hoje é Arunachal Pradesh, na Índia, filho de Tashi Tenzin e Tsewang Lhamo.

Para concluir o Palácio Potala, o Desi Sangye Gyatso cumpriu o desejo do Quinto Dalai Lama e manteve sua morte em segredo por quinze anos. Dizia-se ao povo que o Grande Quinto estava prolongando sua longa reclusão. Em ocasiões importantes, o manto cerimonial do Dalai Lama era colocado no trono. Quando príncipes mongóis insistiam em uma audiência, um velho monge chamado Depa Deyrab, do mosteiro de Namgyal, que se parecia com o Dalai Lama, era contratado para se passar por ele. Usava chapéu e sombra nos olhos para esconder o fato de não ter o olhar penetrante do Dalai Lama. O Desi conseguiu manter essa farsa até saber que um menino em Mon demonstrava habilidades notáveis. Enviou seus assistentes de confiança à região e, em 1688, o menino foi levado a Nankartse, um lugar perto de Lhasa. Ali foi educado por professores nomeados pelo Desi até 1697, quando este enviou seu ministro de confiança, Shabdrung Ngawang Shonu, à corte manchu para informar o imperador K'ang-si sobre a morte do Quinto e a descoberta do Sexto Dalai Lama. Ele anunciou o fato ao povo do Tibete, que recebeu a notícia com gratidão e alegria e agradeceu ao Desi por tê-los poupado de lamentar o pôr do sol e, em vez disso, por fazê-los celebrar o seu nascer.

O Desi convidou o Quinto Panchen Lama, Lobsang Yeshi, a Nankartse, onde o segundo líder religioso mais elevado do Tibete concedeu ao jovem os votos de noviço monge e lhe deu o nome de Tsangyang Gyatso. Em 1697, o jovem de quatorze anos foi entronizado como Sexto Dalai Lama, em cerimônia da qual participaram funcionários do governo tibetano que representavam os três grandes mosteiros (Sera, Gaden e Drepung), príncipes mongóis, representantes do imperador K'ang-si e a população de Lhasa.

Em 1701, houve um conflito entre o Desi e Lhasang Khan, descendente de Gushir Khan, e este matou o Desi Sangya Gyatso, o que perturbou o jovem Dalai Lama. Ele abandonou os estudos monásticos e optou pela vida ao ar livre, sem intenção de receber os votos completos de ordenação. Chegou a visitar o Panchen Lama em Shigatse, pediu seu perdão e renunciou até mesmo aos votos de noviço monge. Embora continuasse a viver no Palácio Potala, passava o tempo perambulando por Lhasa e por aldeias vizinhas: os dias com amigos no parque atrás do Palácio Potala e as noites em tavernas de Lhasa e de Shol (uma área abaixo do Potala), bebendo chang e cantando canções. Era conhecido como grande poeta e escritor e compôs vários poemas. Em 1706, foi convidado à China e morreu no caminho.

O Sétimo Dalai Lama, Kelsang Gyatso

Em retrospecto, os tibetanos acreditaram que Tsangyang Gyatso previu o próprio renascimento em Lithang, em Kham, ao escrever um canto em que pedia a um grou branco que lhe emprestasse as asas, pois não iria além de Lithang e de lá voltaria.

De fato, o Sétimo Dalai Lama nasceu em 1708, em Lithang, filho de Sonam Dargya e Lobsang Chotso, dois anos depois do desaparecimento do Sexto.

O mosteiro Thupten Jampaling, fundado em Lithang pelo Terceiro Dalai Lama, ficou maravilhado com os prodígios da criança, e os oráculos estatais de Lithang também haviam previsto que o recém-nascido seria a reencarnação do Dalai Lama falecido. No entanto, devido à situação política turbulenta, não puderam levar o novo Dalai Lama a Lhasa, e ele foi levado ao mosteiro de Kumbum, onde foi ordenado por Ngawang Lobsang Tenpai Gyaltsen.

Em 1720, foi entronizado no Palácio Potala e recebeu os votos de noviço monge do Panchen Lobsang Yeshi, que lhe deu o nome de Kelsang Gyatso. Em 1726, durante o mês auspicioso de Saka Dawa, recebeu os votos de Gelong (ordenação completa) do Panchen Rinpoche. Buscou como tutor o preceptor de Panchen Lobsang Yeshi, o abade do mosteiro de Gyumey e o abade do mosteiro de Shalu, Ngawang Yonten, com quem estudou todos os principais tratados filosóficos budistas e se tornou mestre tanto do sutra quanto do tantra.

Em 1751, aos quarenta e três anos, constituiu o Kashag, ou conselho de ministros, para administrar o governo tibetano, e então aboliu o cargo de Desi, por concentrar poder demais nas mãos de um só homem. O Dalai Lama tornou-se o líder espiritual e político do Tibete. Aos quarenta e cinco anos, fundou a Escola Tse no Palácio Potala e construiu o novo palácio de Norling Kalsang Phodrang. O Sétimo Dalai Lama foi um grande erudito e escreveu muitos livros, sobretudo sobre o tantra. Foi também um grande poeta que, diferentemente de Tsangyang Gyatso, se dedicou a temas espirituais. Sua vida simples e sem mácula conquistou o coração de todos os tibetanos. Faleceu em 1757.

O Oitavo Dalai Lama, Jamphel Gyatso

O Oitavo Dalai Lama, Jamphel Gyatso, nasceu em 1758, em Thobgyal, Lhari Gang, na região de Tsang, no sudoeste do Tibete. Seu pai, Sonam Dhargye, e sua mãe, Phuntsok Wangmo, eram originários de Kham e remontavam sua ascendência a Dhrala Tsegyal, um dos heróis lendários da epopeia de Gesar.

Assim que Jamphel Gyatso foi concebido, Lhari Gang foi abençoada com uma colheita farta, em que cada haste de cevada trazia três, quatro e cinco espigas, algo sem precedentes. Quando a mãe e um parente jantavam no jardim, surgiu um grande arco-íris, cuja extremidade tocou o ombro da mãe. (Isso é considerado um presságio muito auspicioso, associado ao nascimento de um ser sagrado.) Pouco depois do nascimento, Jamphel Gyatso era frequentemente visto olhando para o céu com um sorriso no rosto. Também foi visto tentando sentar-se na postura de meditação de lótus. Quando Palden Yeshi, o Sexto Panchen Lama, ouviu falar desse menino, declarou que ele era a autêntica reencarnação do Dalai Lama.

Ao começar a falar, a criança disse que iria a Lhasa aos três anos de idade. Agora, todo o Tibete estava convencido de que aquele menino era o Oitavo Dalai Lama. Darkpa Thaye, principal assistente do Sétimo Dalai Lama, chegou a Lhasa com um grande contingente de lamas e funcionários do governo tibetano. Levaram o menino, então com dois anos e meio, ao mosteiro de Tashi Lhunpo, em Shigatse, realizaram a cerimônia de reconhecimento, e o Panchen Lama deu-lhe o nome de Jamphel Gyatso.

Em 1762, o menino foi levado a Lhasa e entronizado no Palácio Potala. A cerimônia foi presidida por Demo Tulku Jamphel Yeshi, que foi o primeiro Regente a representar os Dalai Lamas quando eram menores. Aos sete anos, recebeu os votos de noviço monge do Panchen Lama e, em 1777, foi plenamente ordenado. Além de seu notável legado espiritual, foi o Oitavo Dalai Lama quem construiu o famoso Parque Norbulingka e o Palácio de Verão, nos arredores de Lhasa. Faleceu em 1804, aos quarenta e sete anos.

O Nono Dalai Lama, Lungtok Gyatso

O Nono Dalai Lama, Lungtok Gyatso, nasceu em 1805, em Dan Chokhor, uma pequena aldeia em Kham, filho de Tenzin Choekyong e Dhondup Dolma.

Em 1807, foi reconhecido como a reencarnação do Oitavo Dalai Lama e levado a Lhasa com grande cerimônia. Em 1810, foi entronizado no Palácio Potala. Recebeu os votos de noviço monge do Panchen Lama, que lhe deu o nome de Lungtok Gyatso. Infelizmente, faleceu em 1815, com apenas nove anos de idade.

O Décimo Dalai Lama, Tsultrim Gyatso

O Décimo Dalai Lama, Tsultrim Gyatso, nasceu em 1816, em Lithang, em Kham, filho de Lobsang Dakpa e Namgyal Bhuti.

Em 1822, foi reconhecido e entronizado no Palácio Potala e, no mesmo ano, recebeu os votos de noviço monge do Panchen Lama, Tenpai Nyima, que lhe deu o nome de Tsultrim Gyatso. Em 1826, aos dez anos, foi matriculado no mosteiro de Drepung, onde estudou diversos textos filosóficos budistas e dominou o sutra e o tantra. Em 1831, reconstruiu o Palácio Potala e, aos dezenove anos, recebeu do Panchen Lama os votos de Gelong (ordenação completa). No entanto, sua saúde era constantemente frágil, e ele faleceu em 1837.

O Décimo Primeiro Dalai Lama, Khedrup Gyatso

O Décimo Primeiro Dalai Lama, Khedrup Gyatso, nasceu em 1838, em Gathar, em Kham Minyak, filho de Tsetan Dhondup e Yungdrung Bhuti.

Em 1841, foi reconhecido como o novo Dalai Lama, e o Panchen Lama, Tenpai Nyipa, cortou seu cabelo e deu-lhe o nome de Khedrup Gyatso. Em 1842, foi entronizado no Palácio Potala e, aos onze anos, recebeu os votos de noviço monge do Panchen Lama. Apesar da pouca idade, assumiu a responsabilidade de líder espiritual e político do Tibete a pedido do povo tibetano. No entanto, faleceu repentinamente em 1856, no Palácio Potala.

O Décimo Segundo Dalai Lama, Trinley Gyatso

O Décimo Segundo Dalai Lama, Trinley Gyatso, nasceu em 1856, em Lhoka, uma região perto de Lhasa, filho de Phuntsok Tsewang e Tsering Yudon.

Em 1858, o jovem menino, como Dalai Lama, foi levado a Lhasa, onde o regente Reting Ngawang Yeshi Tsultrim Gyaltsen lhe deu o nome de Thupten Gyatso. Em 1860, aos cinco anos, recebeu os votos de noviço monge do detentor do trono de Gaden, Lobsang Khenrab, e foi entronizado no Palácio Potala. Em 1873, aos dezoito anos, assumiu plena responsabilidade como líder espiritual e político do Tibete. Em 1875, faleceu aos vinte anos, no Palácio Potala.

O Décimo Terceiro Dalai Lama, Thupten Gyatso

O Décimo Terceiro Dalai Lama, Thupten Gyatso, nasceu no ano do Rato de Fogo de 1876, em Langdun, em Dagpo, no centro do Tibete (Thakpo), filho de Kunga Rinchen e Lobsang Dolma, um casal de camponeses.

Em 1877, foi reconhecido como a reencarnação do 12º Dalai Lama, seguindo as previsões do Oráculo Estatal Nechung e outros sinais auspiciosos em seu local de nascimento. Foi então levado a Lhasa. Em 1878, o Oitavo Panchen Lama, Tenpai Wangchuk, realizou a cerimônia de corte de cabelo e deu-lhe o nome de Ngawang Lobsang Thupten Gyatso Jigdral Chokley Namgyal. Em 1879, foi entronizado no Grande Salão de Recepções do Palácio Potala. Ainda naquele ano, recebeu os votos de Upasaka (tib.: ge-nyen) do Regente Tatsak Rinpoche, Ngawang Palden Yeshi. Em 1882, aos seis anos, foi formalmente ordenado noviço monge (tib.: ge-tsul) pelo mesmo Regente.

Em 1895, recebeu a ordenação plena de monge (tib.: ge-long) de seu tutor, Phurchok Ngawang Jampa Rinpoche, no Templo Jokhang, em Lhasa. Phurchok atuou como Preceptor e Mestre de Procedimentos da cerimônia. Ele foi auxiliado por muitos mestres budistas eminentes do Tibete naquela época, entre eles Ling Rinpoche Lobsang Lungtok Tenzin Thinley e o detentor do trono de Gaden, que atuou como Mestre de Inquirição Secreta e cumpriu as demais funções exigidas pela cerimônia. Em 27 de setembro de 1895, assumiu finalmente a autoridade política e espiritual do Tibete e foi lançado no centro do Grande Jogo travado pela Rússia czarista e pela Índia britânica nas margens de seus vastos impérios. Atravessou a invasão britânica do Tibete, em 1904, e a invasão chinesa de seu país, em 1909/10, sobrevivendo às provações de ambas e com sua autoridade muito fortalecida.

Quando se espalhou, em 1910, a notícia de que Lu Chan, general chinês da força manchu, havia chegado a Lhasa, o Dalai Lama e alguns dos funcionários mais importantes fugiram de Lhasa rumo à Índia. O grupo atravessou Dromo e negociou com os invasores chineses no Passo Jelep-la, que separa o Tibete de Sikkim.

Em 1911, a dinastia manchu foi derrubada, e os tibetanos aproveitaram a oportunidade para expulsar do Tibete as forças manchus remanescentes. O Dalai Lama voltou ao Tibete e passou a exercer uma autoridade política sem precedentes, não vista desde o reinado do Quinto Dalai Lama. Além de tentar modernizar o Tibete, procurou eliminar algumas das características mais opressivas do sistema monástico tibetano. Durante seu exílio na Índia, fascinou-se pelo mundo moderno e introduziu as primeiras cédulas e moedas tibetanas. Em 13 de fevereiro de 1913, tornou público o pronunciamento de cinco pontos que reafirmava a independência do Tibete. Também em 1913, estabeleceu o primeiro correio do Tibete e enviou quatro jovens tibetanos para estudar engenharia na Inglaterra.

Em 1914, fortaleceu a força militar do Tibete ao organizar treinamento especial para o exército. Em 1917, fundou em Lhasa o Men-Tsee-Khang (Instituto Tibetano de Medicina e Astrologia), para preservar os sistemas tradicionais tibetanos, únicos, de medicina e astrologia. Para isso, selecionou cerca de cem jovens inteligentes para se formarem no Men-Tse-Khang. Em 1923, criou uma Sede de Polícia em Lhasa, para a segurança e o bem-estar do povo tibetano. No mesmo ano, fundou em Gyaltse a primeira escola de inglês do Tibete. Infelizmente, faleceu em 1933, aos cinquenta e oito anos, antes de alcançar seu objetivo de modernizar o Tibete.

A relação com a Tibet House Brasil

A Tibet House Brasil integra a rede de Tibet Houses criada sob orientação de Sua Santidade para preservar e difundir o patrimônio cultural e espiritual do Tibete. O diretor da casa, Ven. Thubten Wangchen, é o representante do Dalai Lama para a América Latina.

Ensinamentos

As traduções e as gravações de ensinamentos realizados no Brasil estão disponíveis no canal da casa no YouTube. A agenda de transmissões dos ensinamentos de Dharamsala é divulgada na nossa agenda e na newsletter.

Fonte da biografia: tibet.net, site da Administração Central Tibetana (conteúdo original do Gabinete de Sua Santidade o Dalai Lama). Tradução e adaptação para o português pela Tibet House Brasil.