Acervo cultural · História do Tibete
Dos Sakya aos Dalai Lamas
Em 1073 d.C., Konchong Gyalpo fundou o Mosteiro Sakya. Seu filho e sucessor, Sakya Kunga Nyingpo, formulou as tradições tântricas dos grandes estudiosos Marpa e Drogme e deu início à seita Sakya. Os lamas Sakya ganharam poder e, de 1244 a 1350 d.C., o Tibete foi governado por uma sucessão de 20 lamas Sakya. Os mongóis, que invadiram muitos países da Europa e da Ásia, também invadiram o Tibete e chegaram a Phenpo, ao norte de Lhasa. No entanto, o príncipe Godan, o khan governante, foi convertido ao budismo por Sakya Kunga Gyaltsen, popularmente conhecido como Sakya Pandita, e a força invasora foi retirada. O khan seguinte, Kublai, também foi convertido ao budismo pelo sobrinho e sucessor de Sakya Pandita, Sakya Phagpa. Em retribuição, Kublai Khan concedeu plena soberania sobre “as três províncias do Tibete: U-Tsang, Dhotoe e Dhome”.
A influência dos governantes-sacerdotes Sakya declinou gradualmente após a morte de Kublai Khan, em 1295. Em 1358, a província de U (Tibete Central) caiu nas mãos do Governador de Nedong, Jangchub Gyaltsen, monge do ramo Phamo Drupa da escola Kagyud. Pelos 86 anos seguintes, onze lamas da linhagem Phamo Drupa governaram o Tibete.
Mas, após a morte de Drakpa Gyaltsen, o quinto governante Phamo Drupa, em 1434, o poder passou para a família Rinpung, que era aparentada por casamento com Drakpa Gyaltsen. De 1436 a 1566, os chefes da família Ringpung detiveram o poder.
Enquanto isso, Tsongkhapa Lobsang Dragpa, um dos maiores estudiosos do Tibete, nasceu em 1357. Ele fundou Ganden, o primeiro mosteiro Gelugpa, em 1409, e deu início à linhagem Gelug.
Na primeira década do século XVI, Tsetan Dorje, um servo da família Rinpung, com a ajuda de algumas tribos locais e de mongóis, conseguiu controlar Shigatse e as regiões vizinhas da província de Tsang. De 1566 a 1642, Tsetan Dorje e seus dois sucessores, com o título de Depa Tsangpa, governaram o Tibete.
Sonam Gyatso, nascido em 1543, destacou-se como um estudioso de grande sabedoria espiritual e temporal. Tornou-se o mestre espiritual do governante Phamo Drupa, Drakpa Jungnay. Foi abade do Mosteiro Drepung e o lama mais eminente de seu tempo. Prestou amplo socorro às vítimas da enchente do Kyichu em 1562, fundou o mosteiro Kham Lithang em 1580 e o Mosteiro Kumbum em 1582. Também mediou com êxito entre as diversas facções em guerra no Tibete. Converteu Altan Khan ao budismo, e este lhe conferiu, em 1578, o título de Dalai Lama, ou “Oceano de Sabedoria”. Como Sonam Gyatso era o terceiro de sua linhagem, tornou-se o Terceiro Dalai Lama. O título foi conferido postumamente aos seus dois predecessores reencarnados.
Desenvolveu-se um relacionamento espiritual estreito entre o Tibete e a Mongólia. A seita Gelugpa fortaleceu-se e, gradualmente, eclipsou a autoridade Sakya, que estava em declínio.
Em 1642, o Quinto Dalai Lama, Ngawang Lobsang Gyatso, assumiu a autoridade espiritual e temporal sobre o Tibete. Ele estabeleceu o Governo Tibetano, conhecido como “Governo Tibetano Gaden Phodrang, Vitorioso em Toda Parte”. Foi convidado à China pelo imperador manchu, que o recebeu como soberano independente e como igual. Registra-se que o imperador saiu de sua capital para encontrá-lo e mandou construir uma passagem inclinada sobre a muralha da cidade, para que o Dalai Lama pudesse entrar em Pequim sem passar por um portão.
O imperador aceitou o Dalai Lama não apenas como soberano independente, mas também como uma Divindade na Terra. Em retribuição, o Dalai Lama usou sua influência para levar os belicosos mongóis a reconhecer o domínio do imperador sobre a China. A partir daí, instaurou-se uma relação sacerdote-patrono que trouxe um novo elemento às relações entre Tibete, China e Mongólia. Outro acontecimento importante foi a declaração do Quinto Dalai Lama de que a linhagem do primeiro Panchen Lama, Choekyi Gyaltsen, que fora um de seus tutores, continuaria.
O glorioso reinado do Grande Quinto foi seguido por um período de intrigas e instabilidade. Para começar, o poderoso primeiro-ministro, Desi Sangye Gyatso, manteve em segredo a morte do Quinto Dalai Lama por quinze anos, para concluir a construção do Palácio do Potala e também para afastar possíveis interferências dos manchus, que se tornavam cada vez mais poderosos na China. Quando o Sexto Dalai Lama, Tsanyang Gyatso, foi finalmente entronizado em 1697, revelou-se um embaraço para o Desi e seus associados: recusava-se a se interessar pelos assuntos de Estado e levava uma vida frívola. As circunstâncias decorrentes do comportamento do jovem Dalai Lama, somadas ao conflito pessoal entre o Desi e Lhazang Khan, neto de Gusri Khan e chefe dos mongóis Qosot no Tibete Central, levaram à renúncia do Desi e à tomada completa do poder político por Lhazang Khan. Este depois se aliou aos manchus e enviou o jovem Dalai Lama ao exílio.
O próprio Lhazang Khan foi derrotado e morto pelos mongóis Dzungar, que haviam chegado ao Tibete a convite dos monges dos três grandes mosteiros Gelugpa de Lhasa, os quais lhes pediram que derrubassem Lhazang Khan. Mas os Dzungar, seguidores fiéis da tradição Gelugpa, não se contentaram com a morte de Lhazang Khan. Passaram a perseguir os adeptos da seita Nyingmapa, o que gerou um sentimento de desencanto com a presença deles em parte do povo tibetano.
Quando Kalsang Gyatso, reencarnação do Sexto Dalai Lama, foi descoberto em Lithang, no leste do Tibete, houve disputa entre várias tribos mongóis e os manchus para obter controle sobre ele, a fim de exercer influência no Tibete. Os manchus tiveram êxito e, em 1720, enviaram tropas para escoltar o jovem Dalai Lama e também para vingar a morte de Lhazang Khan. Ao mesmo tempo, tropas tibetanas sob o comando de Khangchennas e Pholhanas aproveitaram a situação para atacar os Dzungar, que fugiram com o máximo de despojos que conseguiram levar.
Assim, quando as tropas manchus entraram em Lhasa, os Dzungar já haviam partido. Mas tinham outros planos e, quando suas tropas finalmente deixaram o país, em 1723, deixaram para trás um Residente, ou Amban, aparentemente para servir ao Dalai Lama, mas na prática para cuidar dos próprios interesses. Esse foi o início da interferência manchu nos assuntos tibetanos. Os manchus também impuseram, contra a vontade dos tibetanos, um candidato próprio como Regente do Tibete. Poucos anos depois, o candidato manchu foi morto, e o então imperador manchu, Yung Cheng, enviou uma força militar, a primeira vez que os manchus invadiram o Tibete. A força de ocupação manchu, em 1727, tentou alterar a administração do Governo Tibetano. O imperador manchu também tentou “comprar” a lealdade de certos príncipes, chefes e lamas tibetanos, concedendo-lhes muitos selos de cargo. Os tibetanos, porém, viam os selos como uma gentileza e não os reconheciam como sinal de vassalagem. Ainda assim, os Residentes manchus (Ambans) passaram a se intrometer nos assuntos de Estado tibetanos sempre que surgia uma oportunidade.
Os tibetanos ficaram indignados com a extensão das intrigas manchus quando o Residente manchu assassinou o Regente tibetano. Em resposta, massacraram os manchus em Lhasa. Os manchus invadiram o Tibete novamente em 1749 e tentaram, sem sucesso, aumentar o poder do Residente manchu.
Em 1786, os gurkhas do Nepal invadiram o Tibete. A causa dessa invasão remontava a alguns anos antes, quando os gurkhas já tinham obtido o controle total do Nepal. O Nepal começara a adicionar cobre às moedas de prata que fornecia ao Tibete. Em 1751, o Sétimo Dalai Lama escrevera aos três reis newaris, que governavam os principados de Kathmandu, Patan e Bhatgaon, para protestar contra essa prática. Quando Prithvi Narayan, chefe dos gurkhas, derrubou os governantes newaris, também foi informado da situação.
Outro ponto de atrito nas relações entre gurkhas e tibetanos foi a intervenção do Tibete na invasão gurkha de Sikkim. O Tibete ofereceu ajuda a Sikkim, e um tratado foi firmado entre o Nepal e Sikkim na presença de dois representantes tibetanos. Os gurkhas ressentiram-se dessa interferência e procuravam um pretexto para atacar o Tibete.
Esse pretexto surgiu na controvérsia sobre a propriedade pessoal do terceiro Panchen Lama, reivindicada pelos seus dois irmãos, Drugpa Tulku e Shamar Tulku. Este último esperava usar o apoio dos gurkhas para sua reivindicação, e os gurkhas usaram a reivindicação de Shamar Tulku para invadir o Tibete.
O Oitavo Dalai Lama, então com 26 anos, pediu ao imperador manchu, Ch’ien Lung, assistência militar temporária. O exército manchu que entrou no Tibete em 1792 tornou-se ainda mais prejudicial aos tibetanos, que novamente tentaram aumentar o poder do Residente manchu. Além disso, Ch’ien Lung enviou de Pequim uma urna de ouro e declarou que a reencarnação do Dalai Lama e de outros lamas importantes deveria ser determinada colocando na urna os nomes dos candidatos e retirando um deles ao acaso, na presença do Residente manchu. Essa imposição imperialista não foi seguida pelos tibetanos, e o Décimo Terceiro Dalai Lama, cuja própria escolha nem sequer fora submetida aos manchus, aboliu publicamente essa prática.
Durante esse período, o Tibete foi invadido diversas vezes, e o Residente manchu em Lhasa envolveu-se em intrigas nefastas e interferiu nos assuntos de Estado tibetanos. Mas o Tibete nunca perdeu sua soberania. O povo tibetano reconhecia apenas o Governo Central Tibetano, chefiado pelo Dalai Lama, como o único governo legal do Tibete.
A soberania do Tibete também se manifestou em suas relações com o Nepal, em 1856, quando um tratado foi assinado entre os dois países sem qualquer consulta à China. Nos assuntos internos do Tibete, a soberania do Governo Central Tibetano em Lhasa ficou mais claramente demonstrada na guerra interna que eclodiu em meados do século XIX entre o chefe de Nyarong, de um lado, e o rei de Derge e os príncipes Horpa, do outro. O Governo Tibetano enviou um exército, esmagou o chefe de Nyarong, cuja invasão ao vizinho causara o problema, e instalou em seu lugar um Governador tibetano, encarregado da supervisão geral dos assuntos dos principados de Derge e Horpa.
Fonte: tibet.net, site da Administração Central Tibetana. Tradução e adaptação para o português pela Tibet House Brasil. Texto publicado originalmente pelo Gabinete de Informação do Secretariado Central Tibetano, em Dharamsala, em dezembro de 1985; reflete a narrativa histórica da Administração Central Tibetana.