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Das origens ao Império Tibetano Acervo cultural · História do Tibete

Das origens ao Império Tibetano

O Tibete, o Teto do Mundo, é um país vasto, com mais de dois terços do tamanho da Índia, ou mais de duas vezes e meia a soma de Áustria, Dinamarca, França e Alemanha. É uma terra rica em minerais e em variedade de flora e fauna. Ao contrário do que se costuma pensar, não é totalmente árido e estéril: tem grandes áreas de florestas, pastagens extensas adequadas à criação de animais e vales férteis e amplos. Cercado por altas cordilheiras cobertas de neve e pontilhado por numerosos lagos, o Tibete é também a nascente de muitos grandes rios, entre eles o Yar lung Tsang-po (Brahmaputra), o Senge Khabab (Indo), o Dri-chu (Yangtzé), o Za chu (Mekong), o Ma chu (Amarelo) e o Gyalmo Ngulchu (Salween), para citar alguns. Além disso, com uma área superior a 2,5 milhões de quilômetros quadrados, o Tibete faz fronteira ao sul com Índia, Nepal, Butão e Birmânia, ao norte com o Turquestão Oriental e a leste com a China. Por isso, o Tibete ocupa não só a posição mais elevada, mas também a mais estratégica da Ásia Central.

O povo tibetano tem identidade própria, com língua falada e escrita, cultura, tradições, culinária e vestuário próprios. Em 1959, a população do Tibete foi estimada em seis milhões de pessoas. Segundo estimativas da Administração Central Tibetana, calcula-se que 1,2 milhão de tibetanos tenham morrido diretamente em decorrência da ocupação chinesa.

A seguir, um breve relato dessa nação: sua origem, como cresceu até se tornar uma grande potência militar e construiu para si um vasto império na Ásia Central; depois, como renunciou ao uso das armas para praticar os ensinamentos do Buda, e as trágicas consequências que hoje sofre em razão do brutal ataque das forças comunistas chinesas.

As origens

Quinhentos anos antes de o Buda Shakyamuni vir ao mundo, ou seja, por volta de 1063 a.C., uma figura semilendária conhecida como Senhor Shenrab Miwo reformou o animismo primitivo do povo Shen e fundou a religião Bon tibetana. Segundo fontes bonpo, dezoito reis de Shangshung governaram o Tibete antes do rei Nyatri Tsenpo. O primeiro rei de Shangshung foi Tiwor Sergyi Jhagruchen.

Shangshung, antes de seu declínio, era o nome de um império que abrangia todo o Tibete. O império conhecido como Shangshung Go-Phug-Bar-sum era formado por Kham e Amdo, que compunham o Go, ou Porta; por U e Tsang, que compunham o Bar, ou Meio; e por Guge e Tod-Nyari Korsum, que compunham o Phug, ou Interior.

Com o declínio do império de Shangshung, surgiu um reino chamado Bod (o nome atual do Tibete) nos vales de Yarlung e Chongyas, na época do rei Nyatri Tsenpo, que deu início à era heroica dos Chogyals (Reis Religiosos). Bod cresceu até que todo o Tibete foi reunificado sob o rei Songtsen Gampo, quando o último rei de Shangshung, Ligmigya, foi morto.

O ano oficial da Era Real Tibetana, no calendário tibetano moderno, é contado a partir da entronização do rei Nyatri Tsenpo, em 127 a.C. Essa linhagem monárquica durou mais de mil anos, até que o rei Tri Wudum Tsen, mais conhecido como Lang Dharma, foi assassinado em 842.

Os mais ilustres desses reis foram Songtsen Gampo, Trisong Deutsen e Ngadhak Tri Ralpachen. Eles são chamados de Três Grandes Reis.

No reinado do rei Songtsen Gampo (nascido em 620 d.C.), o Tibete tornou-se uma grande potência militar, e seus exércitos percorreram a Ásia Central. Ele promoveu o budismo no Tibete e enviou um de seus ministros e outros jovens tibetanos à Índia para estudar. Primeiro, casou-se com uma princesa tibetana, filha do rei de Shangshung; depois, obteve uma consorte nepalesa. Após invadir o Império Chinês, também conseguiu uma princesa chinesa como uma de suas esposas. Essas duas últimas esposas ganharam destaque na história religiosa do Tibete por seus serviços ao budismo.

No reinado (755-97) do rei Trisong Deutsen, o império tibetano atingiu seu auge, e seu exército invadiu a China e outros países da Ásia Central. Em 763 d.C., os tibetanos tomaram Ch’ang-an, então capital chinesa, atual Xian. Como o imperador chinês havia fugido, os tibetanos nomearam um novo imperador. Essa vitória memorável ficou preservada para a posteridade no Zhol Doring, um pilar de pedra em Lhasa, cujo texto diz, em parte:

“O rei Trisong Deutsen, homem de profunda sabedoria, tinha um conselho de vasto alcance, e tudo o que fazia pelo reino tinha pleno êxito. Conquistou e manteve sob seu domínio muitos distritos e fortalezas da China. O imperador chinês, Hehu Ki Wang, e seus ministros ficaram aterrorizados. Ofereceram um tributo anual perpétuo de 50.000 rolos de seda, e a China foi obrigada a pagar esse tributo…”

Foi durante seu reinado que Samye, o primeiro mosteiro do Tibete, foi fundado pelo Guru Padmasambhava, que também estabeleceu a supremacia do budismo. O rei Trisong Deutsen expulsou os monges chineses (Hoshang), baniu para sempre do Tibete a escola Chan chinesa do budismo e adotou o sistema indiano. Declarou ainda o budismo religião de Estado do Tibete.

No reinado do rei Ngadhak Tri Ralpachen (815-836 d.C.), os exércitos tibetanos obtiveram muitas vitórias e, em 821-2, foi firmado um Tratado de Paz com a China. O texto do tratado foi gravado em três lugares: um do lado de fora do portão do palácio do imperador chinês em Ch’ang-an, outro diante do portão principal do templo Jokhang, em Lhasa, e o terceiro na fronteira entre Tibete e China, no Monte Gugu Meru. Os eminentes estudiosos tibetanos Kawa Paltsek e Chogru Lui Gyaltsen, trabalhando com estudiosos indianos convidados ao Tibete, prepararam o primeiro léxico sânscrito-tibetano, chamado Mahavyapatti.

Em 838 d.C., o irmão do rei Ralpachen, Wudum Tsen, subiu ao trono. Ele tentou restabelecer a religião Bon e perseguiu os budistas. Após seu assassinato por um monge budista, o reino foi dividido entre seus dois filhos. Com príncipes, senhores e generais disputando o poder em guerra, o poderoso Império Tibetano se desintegrou em muitos pequenos principados entre 842 e 1247 d.C.

Fonte: tibet.net, site da Administração Central Tibetana. Tradução e adaptação para o português pela Tibet House Brasil. Texto publicado originalmente pelo Gabinete de Informação do Secretariado Central Tibetano, em Dharamsala, em dezembro de 1985; reflete a narrativa histórica da Administração Central Tibetana.