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Independência, invasão e exílio Acervo cultural · História do Tibete

Independência, invasão e exílio

Em 1876, o Décimo Terceiro Dalai Lama, Thubten Gyatso, aos 19 anos, assumiu as funções de Estado do Regente Chokyi Gyaltsen Kundeling. Foi uma personalidade notável e ajudou o Tibete a reafirmar sua legítima soberania nos assuntos internacionais.

Nessa época, os britânicos mantinham laços estreitos e lucrativos com a China, e os chineses haviam convencido os britânicos de que exerciam “suserania” sobre o Tibete. Por isso, em 13 de setembro de 1876, foi assinada a Convenção de Chefoo, entre a Grã-Bretanha e a China, que concedia à Grã-Bretanha o “direito” de enviar uma missão de exploração ao Tibete. A missão foi abandonada quando os tibetanos se recusaram a recebê-la, alegando não reconhecer a autoridade da China. Outros dois acordos semelhantes, a Convenção de Pequim, de 24 de julho de 1886, e a Convenção de Calcutá, de 17 de março de 1890, também foram repudiados pelos tibetanos.

O Governo Tibetano recusou-se a manter qualquer relação com os britânicos, que negociavam por cima de sua cabeça com os chineses. Isso coincidiu com novos contatos entre a Rússia e o Tibete por volta de 1900 a 1901.

Seguiu-se uma troca de cartas e presentes entre o Dalai Lama e o czar russo. Isso reforçou os temores britânicos quanto ao envolvimento russo nos assuntos tibetanos. Como o poder russo na Ásia crescia, os britânicos sentiram que seus interesses estavam em jogo. O Tibete foi invadido pela força expedicionária britânica sob o comando do Coronel Younghusband, que entrou em Lhasa em 3 de agosto de 1904. Um tratado foi assinado entre o Tibete e a Grã-Bretanha em 7 de setembro de 1904. Durante a invasão britânica, o Tibete conduziu seus assuntos como país independente. Pequim sequer protestou contra a invasão britânica do Tibete.

Quando os britânicos invadiram o Tibete, o Décimo Terceiro Dalai Lama foi para a Mongólia. Os manchus, que então governavam a China, fizeram uma última tentativa de interferir no Tibete por meio das campanhas militares do infame Chao-Erhfeng. Quando o Dalai Lama estava no Mosteiro Kumbum, na província de Amdo, recebeu duas mensagens: uma de Lhasa, instando-o a retornar com toda a pressa, pois temiam por sua segurança e não podiam se opor às tropas invasoras de Chao-Erhfeng; e outra de Pequim, pedindo que visitasse a capital chinesa. O Dalai Lama optou por ir a Pequim, na esperança de convencer o imperador chinês a interromper a agressão militar contra o Tibete e retirar suas tropas.

Quando o Dalai Lama finalmente retornou a Lhasa, em 1909, descobriu que, contrariando todas as promessas recebidas em Pequim, as tropas de Chao-Erhfeng estavam em seu encalço. Durante o festival anual Monlam de 1920, cerca de 2.000 soldados manchus e chineses, sob o comando do General Chung Ying, entraram em Lhasa e se entregaram a uma carnificina de estupros, assassinatos, saques e destruição desenfreada. Mais uma vez, o Dalai Lama foi forçado a deixar Lhasa. Nomeou um Regente para governar em sua ausência e partiu para a cidade meridional de Dromo, com a intenção de seguir para a Índia britânica, se necessário. Os acontecimentos em Lhasa e as tropas chinesas em seu encalço obrigaram-no a deixar o país mais uma vez.

Na Índia, o Dalai Lama e seus ministros apelaram ao governo britânico para que ajudasse o Tibete. Enquanto isso, a força de ocupação manchu tentou subverter o Governo Tibetano e dividir o Tibete em províncias chinesas, exatamente o que, não meio século depois, os comunistas chineses fariam.

Quando a notícia da Revolução de 1911 na China chegou a Lhasa, as tropas chinesas se rebelaram contra seus oficiais manchus e atacaram a residência dos Ambans. Irromperam combates entre generais manchus e chineses rivais. Então, numa tentativa desesperada de recuperar o controle cada vez menor sobre Lhasa, os chineses atacaram os tibetanos. Àquela altura, porém, os tibetanos já se haviam reorganizado, seguindo ordens emitidas pelo Dalai Lama na Índia. As tropas chinesas em Lhasa e em outras partes do Tibete foram derrotadas pelos tibetanos e, por fim, expulsas em 1912. Durante esse período de combates e confusão, o novo governante da China, o presidente Yuan Shih-Kai, tentou enviar reforços militares às tropas sitiadas e, ao mesmo tempo, apaziguar os tibetanos. Ele se desculpou pelos excessos e disse ter restaurado a posição (rank) do Dalai Lama. Mas isso foi rejeitado pelo Dalai Lama, que respondeu não estar pedindo ao Governo chinês qualquer posição, pois pretendia exercer tanto o governo espiritual quanto o temporal no Tibete, e declarou a independência do Tibete.

Em janeiro de 1913, foi assinado em Urga um tratado bilateral entre o Tibete e a Mongólia. Nesse tratado, ambos os países se declararam livres e separados da China.

O Décimo Terceiro Dalai Lama, que retornara da Índia em janeiro de 1913, emitiu uma declaração formal de completa independência do Tibete, datada do oitavo dia do primeiro mês do ano do Boi-Água (1º de março de 1913). O documento deixava claro também que “a intenção chinesa de colonizar o Tibete sob a relação patrono-sacerdote desvaneceu-se como um arco-íris no céu”.

O Décimo Terceiro Dalai Lama iniciou relações internacionais, introduziu os serviços modernos de correios e telégrafos e, apesar do período turbulento em que governou, adotou medidas para modernizar o Tibete. Faleceu em 17 de dezembro de 1933.

No ano seguinte, uma missão chinesa chegou a Lhasa para apresentar condolências, mas, na verdade, tentou definir a fronteira sino-tibetana. Após a saída do delegado-chefe, outro delegado chinês permaneceu para dar continuidade às discussões. A delegação chinesa foi autorizada a permanecer em Lhasa em pé de igualdade com os representantes do Nepal e da Índia, até ser expulsa em 1949.

Em setembro de 1949, a China comunista, sem qualquer provocação, invadiu o leste do Tibete e, em 19 de outubro de 1950, capturou Chamdo, sede do Governador-Geral do Tibete Oriental. Em 11 de novembro de 1950, o Governo Tibetano protestou junto à ONU contra a agressão chinesa. Embora El Salvador tenha levantado a questão, o Comitê Diretor da Assembleia Geral decidiu adiar o assunto.

Em 17 de novembro de 1950, Sua Santidade o Décimo Quarto Dalai Lama assumiu plenos poderes espirituais e temporais como Chefe de Estado, diante das graves crises que o país enfrentava, embora tivesse apenas dezesseis anos. Em 23 de maio de 1951, uma delegação tibetana que fora a Pequim para negociar sobre a invasão foi forçada a assinar o chamado “Acordo de 17 Pontos sobre as Medidas para a Libertação Pacífica do Tibete”, sob ameaças de mais ação militar no Tibete e com a falsificação dos selos oficiais do Tibete.

Os chineses usaram então esse documento para executar seus planos de transformar o Tibete em colônia da China, desconsiderando a forte resistência do povo tibetano. Além disso, a China violou cada artigo desse “tratado” desigual que impusera aos tibetanos.

Em 9 de setembro de 1951, milhares de soldados chineses marcharam sobre Lhasa. A ocupação forçada do Tibete foi marcada pela destruição sistemática de mosteiros, pela supressão da religião, pela negação de liberdades políticas, por prisões e encarceramentos generalizados e pelo massacre de homens, mulheres e crianças inocentes.

Em 10 de março de 1959, a resistência tibetana em todo o país culminou no Levante Nacional Tibetano contra os chineses em Lhasa. Os chineses reagiram com uma brutalidade desconhecida pelos tibetanos. Milhares de homens, mulheres e crianças foram massacrados nas ruas, e muitos outros foram presos e deportados. Monges e monjas eram alvos principais. Mosteiros e templos foram bombardeados.

Em 17 de março de 1959, o Dalai Lama deixou Lhasa e escapou dos chineses que o perseguiam, buscando asilo político na Índia. Foi seguido por um êxodo sem precedentes de tibetanos para o exílio. Nunca antes, em sua longa história, tantos tibetanos haviam sido forçados a deixar sua terra natal em circunstâncias tão difíceis. Atualmente, há mais de cento e cinquenta mil refugiados tibetanos espalhados pelo mundo.

A China não afirma apenas que o Tibete sempre foi “parte da mãe pátria” (China), mas também alega que trouxe progresso ao Tibete e que o povo tibetano é “feliz” sob seu governo.

A história mostra que não há fundamento para a alegação chinesa de que o Tibete é “parte da China”. É verdade que o Tibete esteve sob a influência dos mongóis, que também governaram a China. Ao mesmo tempo, os manchus, últimos governantes imperiais da China, também interferiram nos assuntos tibetanos. Mas, antes de 1949, a China nunca exercera qualquer controle sobre o Tibete.

Fonte: tibet.net, site da Administração Central Tibetana. Tradução e adaptação para o português pela Tibet House Brasil. Texto publicado originalmente pelo Gabinete de Informação do Secretariado Central Tibetano, em Dharamsala, em dezembro de 1985; reflete a narrativa histórica da Administração Central Tibetana.