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A bondade pode ser ensinada?

Por Richard Schiffman | New York Times | DEC. 14, 2017

Graças a um desafio lançado pelo Dalai Lama, uma série de pré-escolas estão tentando ensinar algo que nunca foi considerado um tema acadêmico: a bondade.

“Você é capaz de olhar para dentro de si mesmo e me dizer o que está sentindo?”, pergunta Danielle Mahoney-Kertes a uma classe de alunos do pré da escola P.S. 212 no Queens.

“Feliz”, disse uma garota. “Doente”, disse outra. Um menino com uma camiseta azul fez timidamente um sinal com o polegar para baixo. “Isso também acontece”, concordou a Sra. Mahoney-Kertes, professora de alfabetização.

O exercício fazia parte do Curriculum de Bondade, desenvolvido pelo Center for Healthy Minds

(Centro para Mentes Saudáveis) da Universidade de Wisconsin, Madison, em que alunos da pré-escola são introduzidos a um potpourri de jogos sensoriais, músicas e histórias projetado para ajudá-los a dar mais atenção às suas emoções.

“Nosso mundo pode ser um lugar um pouco assustador”, disse Mahoney-Kertes. “Nem sempre conseguimos controlar o que está acontecendo fora de nós. Mas o que nós estamos ensinando é que eles podem escolher como responder”.

Desde que o currículo foi introduzido em agosto, mais de 15 mil educadores, pais e outros de todo o mundo se inscreveram.

Danielle Mahoney-Kertes lidera estudantes na P.S. 212 em um exercício de escuta mindful. A escola foi uma das primeiras escolas públicas da cidade de Nova York a apresentar práticas baseadas na mindfulness, incluindo o Curriculum da Bondade. Foto: Jeenah Moon for The New York Times

A escola P.S. 212, que fica em um bairro em Jackson Heights, lar de muitas pessoas recém-imigradas, foi uma das primeiras escolas públicas da cidade de Nova York a introduzir práticas baseadas na presença mental, como a ioga. O Curriculum de Bondade, que incorpora presença mental, era um caminho natural.

“Pode acontecer de uma criança entrar e dizer: ‘Meu pai foi deportado ontem à noite’. “Como você lida com isso?”, disse a diretora da escola, Carin Ellis. “Nós oferecemos ferramentas para as crianças lidarem com suas feridas e suas dores”.

A Srta. Ellis acredita que o Curriculum de Bondade também ajudou as crianças a lidarem com o estresse dos exames e reduzir os conflitos interpessoais.

“Quando você não é gentil com o outro, isso tem a ver com você mesmo e com o que está sentindo”, disse ela. “Se as crianças puderem para um pouquinho e apenas respirar, elas conseguirão evitar agir contra os outros”.

Parece haver outros benefícios. A pesquisa liderada pela psicóloga clínica Lisa Flook mostrou que os jovens que receberam o treinamento de bondade demonstraram-se mais altruístas em testes que mediram a disposição em compartilhar com os outros. Também fortaleceu a capacidade das crianças de se concentrarem e levou a uma pequena melhora no desempenho acadêmico.

Alguns argumentam que as habilidades emocionais são melhor ensinadas pelos pais do que pelos professores. Mas a Dra. Flook ressalta que, quando as crianças chegam à sala de aula com ansiedade, raiva ou medo, muitas vezes estão muito distraídas e não conseguem se concentrar. “Crianças que têm relações positivas com seus colegas e professores se saem melhor na escola”, disse ela.

Elas também podem ter uma vida mais bem sucedida posteriormente. Um estudo de 2015 que rastreou os alunos desde o jardim da infância até a idade adulta jovem mostrou que indivíduos com boas habilidades pro-sociais – comportamento positivo, prestativo e amigável – tendiam a ser mais bem sucedidos como adultos do que aqueles que se saíam bem em assuntos como leitura e matemática, mas que não tinham a capacidade de conviver bem com outros.

O Curriculum de Bondade faz parte de um movimento global crescente para ensinar inteligência emocional nas escolas. Os defensores dessa abordagem dizem que é uma estreiteza de visão os educadores concentrarem-se exclusivamente na aprendizagem intelectual e ignorarem as habilidades emocionais cooperativas que permitem que a aprendizagem – e os que estão aprendendo – floresçam.

Ainda assim, alguns questionam se traços de personalidade, como a bondade, podem ser ensinados.

Richard Davidson, o fundador do Center for Healthy Minds, acredita que a antiga sabedoria budista fornece algumas dicas. Ele foi inspirado, disse ele, por uma solicitação do líder espiritual do Tibete, o Dalai Lama, de levar insights da prática contemplativa para fora do contexto religioso e com eles desenvolver estratégias para ajudar a melhorar a vida das pessoas.

Os meditadores budistas observam suas sensações corporais e sentimentos para gerar uma mente calma mais favorável a promover a compaixão. Dr. Davidson disse que usou esse conceito como base para ensinar as crianças a observar o que sentem e como seus corpos se movem.

“Crianças que têm relações positivas com seus colegas e professores se saem melhor na escola”, disse Dra Lisa Flook Foto: Jeenah Moon for The New York Times

Em uma dessas práticas, as crianças observam seu “amiguinho da barriga”, um bicho de pelúcia colocado sobre o abdômen, e sentem que ele sobe e desce conforme respiram. A respiração abdominal foi adaptada pelo programa infantil “Sesame Street” (Vila Sésamo), que consultou a equipe da Universidade de Wisconsin e adotou a bondade como tema da última temporada.

O programa encoraja as crianças a “identificar seus sentimentos e colocar um rótulo”, disse Rosemarie Truglio, vice-presidente sênior de currículo e conteúdo da Sesame Workshop, que produz a “Sesame Street“.

“Quando você ajuda as crianças a fazerem isso, elas se sentem validadas – você as ajuda a entenderem o que sentem”.

A Dra. Truglio observou que quanto mais conscientes as crianças são de suas próprias emoções, mais capazes elas são de empatizar com os sentimentos dos outros e de responder de maneira prestativa. Inicialmente, muitas das crianças com quem trabalhava não sabiam o que a palavra “bondade” significava, lembra. Os pais e os professores sempre lhes diziam para serem “gentis”. “Queríamos apresentar-lhes a palavra” bondade”, disse ela,” não definindo por palavras mas por meio de comportamentos”.

Em “Sesame Street“, os personagens dão exemplos de uma variedade de ações gentis. Por exemplo, os amigos do Big Bird (Garibaldo) ajudam-no a vencer o medo de subir no palco; Elmo espera pacientemente enquanto Zoe aprende a usar sua lambreta. O programa, em seguida, corta para sua “câmera da bondade”, que mostra crianças reais comportando-se de maneira semelhante.

A Sesame Street  fez uma pesquisa para preparar seu foco na bondade. Em uma pesquisa nacional com 2.502 pais e professores, mais de três quartos disseram que muitas vezes se preocupavam com a visão de que “o mundo é um lugar cruel para as crianças”. Aproximadamente a mesma porcentagem dizia que era mais importante para as crianças aprenderem a bondade do que tirar boas notas.

O Dr. Davidson disse que o período entre as idades de 4 e 7 é uma janela de desenvolvimento crítica em que o cérebro está se reorganizando e está particularmente aberto a aprender novas informações (como línguas estrangeiras), além de desenvolver hábitos psicológicos que persistirão por toda a vida.

Para ter um impacto duradouro, ele disse, as lições emocionais ensinadas aos pré-escolares precisam ser reforçadas à medida que as crianças crescem.

Um outro programa que trabalha a bondade com alunos mais velhos, a “Kind Campaign“, fundada em Los Angeles, em 2009, organiza assembleias do ensino médio e faculdade que abordam o problema do bullying entre mulheres jovens. As meninas são convidadas a escrever uma “um amável pedido de desculpas” e entregá-lo a alguém que com quem tenham cometido um erro.

Outro grupo, a Random Acts of Kindness Foundation, desenvolveu planos de aula para todas as faixas etárias de todo o ensino médio. Os alunos são guiados nas discussões em sala de aula e são convidados a realizarem ações positivas, como sentar-se com alguém que está sozinho no refeitório e escrever cartas de agradecimento imaginativas para si mesmos no futuro.

“A bondade consigo mesmo é chave”, disse Brooke Jones, vice-presidente da fundação. “Quando você vai mal em uma prova, por exemplo, você se diz “como eu sou estúpido”, ou você diz para si mesmo, “tenho mais coisas para aprender?” Nós nos concentramos na importância de as crianças acreditarem em si mesmas”.

A Sra. Mahoney-Kertes ressalta, no entanto, que os educadores devem praticar o que pregam para que suas lições sejam verdadeiramente eficazes. “Os professores precisam trabalhar em si mesmos. Eles precisam se tornar exemplos da bondade que eles estão tentando ensinar”.

Tradução livre de Jeanne Pilli do original:
https://www.nytimes.com/2017/12/14/well/family/kindness-curriculum-preschool.html?