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Dalai Lama: nosso futuro está em nossas mãos

DALAI LAMA, 1 DE DEZEMBRO DE 2017

Este é um artigo da Turning Points, uma revista que explora o que os momentos críticos deste ano podem significar para o próximo ano.

Uma fenda em uma plataforma de gelo flutuante na Antártida atingiu seu ponto de ruptura e deu origem a um enorme iceberg, que agora flutua nos mares. É uma imagem apropriada para um mundo que se sente sob pressão e à beira de… bem… de tudo – pronto para se romper e se libertar. A temperatura política global está subindo, o futuro da verdade está em debate e o espectro do conflito nuclear paira no ar. Pedimos a Sua Santidade o Dalai Lama para compartilhar seus pensamentos conosco sobre como lidar com tudo isso.

Estamos enfrentando uma época de grande incerteza e agitação em muitos cantos do nosso planeta. Quando pensamos em transformar o mundo um lugar melhor, o interesse pelo outro é fundamental.

Nosso futuro está completamente em nossas mãos. Dentro de cada um de nós existe o potencial de contribuir positivamente para a sociedade. Embora um único indivíduo em meio a tantos neste planeta possa parecer muito insignificante para produzir um grande efeito no curso da humanidade, são nossos esforços pessoais que determinarão a direção que nossa sociedade irá tomar.

Onde quer que eu vá, sempre me considero apenas um dos 7 bilhões de seres humanos vivos neste momento. Nós todos compartilhamos um desejo fundamental: queremos viver uma vida feliz, e isso é nosso direito legítimo. Não há formalidade quando nascemos, e nem quando morremos. Nesse meio tempo, devemos nos tratar como irmãos e irmãs porque compartilhamos esse mesmo desejo: paz e contentamento.

Infelizmente, enfrentamos todo tipo de problema, muitos deles criados por nós mesmos. Por quê? Porque somos influenciados por emoções como egoísmo, raiva e medo.

Um dos remédios mais eficazes para lidar com padrões de pensamento destrutivos é cultivar a “bondade amorosa” pensando naquilo que une todos os 7 bilhões de seres humanos do mundo. Se refletirmos sobre o que faz com que todos sejamos iguais, as barreiras entre nós diminuirão.

A compaixão nos traz mais calma e mais autoconfiança, permitindo que nossa maravilhosa inteligência humana funcione sem impedimentos. A empatia está nos nossos genes – os estudos mostraram que até mesmo bebês de 4 meses são capazes de sentir empatia. As pesquisas mostraram diversas vezes que a compaixão leva a uma vida bem-sucedida e gratificante. Por que, então, não nos concentramos mais em cultivá-la na idade adulta? Quando estamos com raiva, nossa capacidade de julgamento é unilateral – não somos capazes de levar em consideração todos os aspectos da situação. Com uma mente calma, conseguimos ter uma visão mais ampla de qualquer circunstância que estivermos enfrentando.

A humanidade é rica na diversidade que surgiu naturalmente da vasta extensão do nosso mundo, desde a variedade de idiomas e formas de escrever até as diferentes normas e costumes sociais. No entanto, quando enfatizamos excessivamente a raça, a nacionalidade, a fé ou o nível de renda ou de educação, esquecemos nossas inúmeras semelhanças. Queremos um teto sobre nossas cabeças e comida em nossas barrigas, para nos sentirmos seguros e para que nossos filhos cresçam fortes. Ao buscarmos preservar nossa própria cultura e identidade, precisamos também nos lembrar que somos parte de uma mesma humanidade e precisamos trabalhar para nutrir o afeto em relação a todos.

No século passado, a inclinação para resolver problemas por meio do uso da força mostrou-se invariavelmente destrutiva e perpetuou o conflito. Se quisermos transformar este século em um período de paz, devemos resolver os problemas por meio do diálogo e da diplomacia. Já que nossas vidas estão tão profundamente interligadas, os interesses dos outros também são nossos. Acredito que adotar atitudes que criam divisões contraria esses interesses.

Nossa interdependência traz vantagens e armadilhas. Embora nos beneficiemos de uma economia global e de uma capacidade de comunicação e saibamos o que está acontecendo no mundo de forma instantânea, também enfrentamos problemas que ameaçam a todos. A mudança climática em particular é um desafio que nos convida mais do que nunca a fazer um esforço comum para defender o bem comum.

Aos que se sentem desamparados diante de sofrimentos insuperáveis, lembro que ainda estamos nos primeiros anos do século XXI. Temos tempo para criar um mundo melhor e mais feliz, mas não podemos ficar sentados à espera de um milagre. Cada um de nós precisa agir, viver a vida de forma significativa, servindo aos nossos semelhantes, ajudando os outros sempre que possível e fazendo todos os esforços para não nos ferirmos uns aos outros.

Lidar com emoções destrutivas e praticar bondade amorosa não é algo que devemos deixar para a próxima vida, mirando o céu ou no nirvana – devemos viver aqui e agora. Estou convencido de que podemos fazer com que os indivíduos sejam mais felizes, as comunidades sejam mais felizes e a humanidade seja mais feliz, cultivar um coração afetuoso, permitindo que prevaleça o que temos de melhor dentro de nós.

Tradução livre de Jeanne Pilli do original: https://www.nytimes.com/2017/12/01/opinion/dalai-lama-despair-future.html